[Via G1]
A seleção “101 canções que tocaram o Brasil” (Estação Brasil, 224 pgs. R$ 59,90) foi, naturalmente, influenciada por um critério pessoal e intransferível: o gosto do autor. Mas, ele próprio compositor, letrista, produtor e crítico musical, Nelson Motta está mais do que qualificado para a tarefa. Nelson é autor de mais de 300 canções, incluindo parcerias de sucesso com músicos como Rita Lee, Dori Caymmi, Marcos Valle, Guinga, Erasmo Carlos e João Donato. “Um novo tempo”, “Coisas do Brasil”, “Como uma onda” (esta, sem falsa modéstia, presente no livro) e “Bem que se quis” estão entre as composições de sua lavra.
Ricamente ilustrada, a antologia começa em 1899, com “Ó abre alas”, de Chiquinha Gonzaga, e vai até 2003, com “À procura da batida perfeita”, de Marcelo D2 e Davi Corcos. No miolo, canções representativas dos primórdios do samba, dos anos da bossa nova, do tropicalismo e do rock brasileiro dos anos 1980. Cada uma é analisada em textos que contam detalhes e curiosidades sobre sua criação e repercussão. Nelson já declarou que sua maior dificuldade foi não ultrapassar o número do título.
Merecidamente escolhidos para ilustrar a capa de “101 canções”, Tom Jobim e Vinicius de Moraes comparecem em dupla (“Chega de saudade”, “Eu sei que vou te amar” e “Garota de Ipanema”), sozinhos e em outras parcerias. Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos são outras presenças destacadas.
Abaixo, trechos do livro sobre seis das 101 canções:
'Palpite infeliz', Noel Rosa (1936):
"(A canção) se impôs pela bela melodia, fundamento em que Noel Rosa sempre foi um mestre, e por oferecer uma crônica do samba urbano carioca em seus primeiros anos".
'Nervos de aço', Lupicínio Rodrigues (1943):
"Lupicínio (...) se inspirava em suas próprias histórias de traições e amores desfeitos, em dramas que ouvia em mesas de bar nas noites frias de Porto Alegre".
'Saudade da Bahia', Dorival Caymmi (1957):
"Naquele fim dos anos 1950, Caymmi já podia se dar ao luxo de ser o primeiro intérprete de suas canções, antecipando o perfil do 'cantautor' que se tornou o padrão da MPB".
'Garota de Ipanema', Tom Jobim e Vinicius de Moraes (1963):
"Inicialmente batizada de 'Menina que passa', a canção tinha sido criada para um musical (...) que Vinicius planejava mas não chegou a terminar".
'Construção', Chico Buarque (1971):
"Chico Buarque mostrou aos seus (poucos) críticos que era muito mais do que um continuador de Noel Rosa ou um ótimo letrista que também fazia música".
À procura da batida perfeita', Marcelo D2 e Davi Corcos (2003):
"Por que, com a riqueza rítmica da música brasileira e a tradição do partido-alto e dos cantadores nordestinos, demorou tanto a aparecer um rap com base rítmica brasileira?".