O intérprete Ross Baird Kasakoff relatou ao Correio do Estado como está a situação do país invadido por tropas russas
Para se proteger, Ross Baird Kasakoff, de 30 anos, planeja abandonar sua casa e partir para o oeste da Ucrânia, próximo à Polônia. O campo-grandense, que mora hoje em Kiev, capital do país, relatou ao Correio do Estado que vive momentos de tensão e incerteza e teme que o conflito com a Rússia se agrave.
“O meu plano é pegar meus amigos e a minha namorada, caso a situação piore, e partir para o oeste, na Polônia. Porque, infelizmente, a Embaixada Brasileira não se manifestou para nos tirar daqui”, relatou o gerente de relacionamento e intérprete.
Ross Baird Kasakoff mora há dois anos em Kiev e conta que não esperava que o conflito pudesse realmente ocorrer, porque nos últimos dias a situação estava mais tranquila.
“Nós acreditávamos que o conflito não iria escalar, porém, hoje cedo [ontem] eu acordei com as sirenes de alerta e com os meus amigos e parentes me telefonando do Brasil. Quando abri as notícias, eu percebi que realmente a Rússia tinha invadido a parte leste do país”, afirmou.
DATA PARA ACONTECER
Conforme o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) Matheus Hernandez, o conflito já era previsível, em razão de o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sentir-se encurralado com a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
“Vladimir Putin já estava planejando esse ataque há alguns meses, desde outubro [de 2021] ele já dava sinais de que faria isso. E isso foi ocasionado por essa possível expansão da Otan, por mais que nunca tenha ocorrido uma conversa oficial entre os governos e a Ucrânia. Esse conflito vai gerar um fluxo grande de refugiados”, esclareceu.
Conforme Kasakoff, o governo ucraniano já decretou um toque de recolher. “Está havendo uma mobilização nacional convocando reservistas. Aqui as pessoas já estão de malas prontas, eu já estou de mala pronta, estamos sendo orientados a não sair de casa sem necessidade. Como eu trabalho e meus colegas também, estamos saindo por esse motivo. Dos transportes públicos, apenas o metrô está funcionando”, disse.
O prefeito de Kiev, Vitaly Klitschko, anunciou que o toque de recolher é para proteger a “segurança” dos habitantes da capital. A medida vai durar das 22h às 7h.
Ainda de acordo com o campo-grandense, o grande número de informações, na maioria das vezes falsas, tem sido um fator desgastante à situação.
“Estamos sendo bombardeados com várias notícias, muitas delas falsas, e isso nos deixa perdidos. Recebemos notificações que várias partes da Ucrânia estão sofrendo ataques pontuais, alguns deles ganhos, outros a Rússia teve vitória”, salientou.
Durante a conversa com o Correio do Estado, Kasakoff relatou que uma cidade chamada Gostomel, que fica a 8 km de Kiev, tinha sido invadida por militares russos. “Acabaram de tomar Gostomel, fica a 8 km de Kiev”, disse, de forma apreensiva.
Os combates pelo controle de um aeroporto militar em Gostomel ocorreram durante toda a tarde de ontem. Até o fechamento desta reportagem, o aeroporto de Gostomel, próximo ao aeroporto de Antonov, localizado ao norte de Kiev, era o local mais próximo da capital ucraniana em que as forças russas chegaram.
ESTRATÉGIAS
Segundo o mestre em Sociologia Política e consultor político João Lucas Moreira Pires, a ação de tomada de aeroportos e meios de comunicação faz parte das estratégias de guerras.
“Os ataques aéreos que estamos acompanhando estão no script de invasões. Aconteceu no Afeganistão, aconteceu no Iraque. O objetivo é destruir todas as resistências militares que existem no país. Os meios de transporte e comunicação também são alvos, como pontes, e já houve ataques hackers”, esclareceu Pires.
AJUDA
A Embaixada do Brasil em Kiev recomendou que os brasileiros que vivem no país e que “possam deslocar-se por meios próprios para outros países a oeste da Ucrânia que o façam tão logo possível, após informarem-se sobre a situação de segurança local”.
Ross Baird Kasakoff disse que a ação tomada pela Embaixada do Brasil é diferente de todas as outras embaixadas.
“As outras embaixadas já se pronunciaram e começaram a retirar suas sedes daqui da cidade de Kiev e mover para cidades próximo à Polônia, a embaixada brasileira não fez isso. A única coisa que eles fizeram foi pôr nas mídias sociais, pedindo para que todos brasileiros que estão aqui se cadastrem para eles entrarem em contato, então, por agora, é só isso que tivemos de auxílio”, pontuou.
Além de Ross, outro sul-mato-grossense enfrenta a mesma situação na Ucrânia. Ismaily Gonçalves dos Santos, de 32 anos, é lateral-esquerdo do Shakhtar Donetsk. O jogador postou um vídeo pedindo ajuda ao governo brasileiro.
“A gente está hospedado aqui no hotel, pedimos ajuda de vocês. Devido à falta de combustível que existe na cidade, fronteira fechada e espaço aéreo fechado, não tem como a gente sair”, relatou.
Via Correio do Estado MS
