Cultura

‘Budismo para Pessoas Ocupadas’ ensina técnicas para encontrar a felicidade

[Via Folha de São Paulo]

O que é preciso para ser feliz? Embora essa pergunta já tenha sido feita por muitos, poucos encontraram o caminho para uma realização duradoura.

Com um cargo invejável, um apartamento luxuoso e um carro importado, David Michie achava que havia alcançado os objetivos da sua vida. Porém, ele vivia com a impressão de que não estava realmente feliz. Após refletir sobre o assunto, ele procurou um centro budista, dando o pontapé inicial em uma jornada que mudaria sua vida.

Em "Budismo para Pessoas Ocupadas", ele apresenta os principais ensinamentos do budismo tibetano para todos os leitores interessados em levar uma vida mais conectada com a natureza humana.

Com uma linguagem humorada, ele recorda como começou a aplicar as práticas budistas em seu cotidiano, explicando de que maneira compreendeu a diferença entre os prazeres temporários e o sentimento de bem-estar e profunda serenidade que sentiu assim que conseguiu encontrar a felicidade.

Abaixo, leia um trecho de "Budismo para Pessoas Ocupadas".

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Não reorganizar as circunstâncias externas, mas a natureza interna

Você pode estar se perguntando: "O que uma tradição desenvolvida em um remoto feudo oriental, há 2.500 anos, poderia ensinar para os ocidentais do século XXI acerca da felicidade?"

Um dos paradoxos mais surpreendentes é que o enfoque do Budismo tibetano poderia ter sido desenvolvido especificamente para o atarefado mundo ocidental de hoje. De uma maneira muito refinada, ele apresenta uma perspectiva sobre a condição humana baseada numa inabalável análise de fatos. Ele proporciona práticas testadas e comprovadas que se apresentam em passos claramente definidos, orientando-nos na passagem do nosso estado mental corriqueiro para um estado de maior felicidade e, em última análise, para a iluminação.

Da perspectiva budista, nossas tentativas de reorganizar as circunstâncias externas de nossa vida, como o dinheiro, os relacionamentos ou a carreira, podem resultar apenas numa satisfação temporária, porque todas essas tentativas deixam de levar em consideração o único fator constante na vida: a mudança. Mesmo quando conseguimos, por algum tempo, que as coisas ocorram conforme desejamos, inevitavelmente algo acontece, frustrando os nossos planos.

Isso não significa que deveríamos desistir da nossa felicidade, mas que deveríamos adotar uma estratégia mais eficaz para alcançar esse estado. O sábio budista Shantideva fez, certa vez, uma analogia eloquente:

Onde encontrar couro suficiente
Para cobrir a superfície da Terra?
Porém, usar couro apenas nas solas dos pés
Equivale a cobrir a Terra inteira.
Shantideva, The Guide to the Bodhisattva Way of Life

Em outras palavras, em vez da impossível tarefa de tentar controlar todo o nosso ambiente, a filosofia budista fala sobre assumirmos o controle do modo como conhecemos esse ambiente, em nossa mente. Nosso objetivo é reorganizar a natureza interna e não as circunstâncias externas; é identificar nossos padrões habituais e negativos de pensar e substituí-los por alternativas mais positivas; é mudar, não o mundo, mas o modo como o conhecemos.

"Tudo isso é muito bonito", você pode estar pensando, "mas se você tivesse que viver/trabalhar/dormir com os filhos/chefe/marido que eu tenho, não haveria ginástica mental que mudasse as coisas."

Assim pode parecer. Mas mesmo nas circunstâncias mais difíceis a mudança é possível. É por esse motivo que um dos símbolos mais reconhecidos do Budismo é o lótus, uma planta que, embora tenha raízes no lodo dos pântanos, transcende seu meio ambiente e sobe até a superfície, onde desabrocha uma flor de uma beleza extraordinária.

Uma psicologia baseada na prática

Como conseguir essa transcendência? Não é por meio do desejo ou da esperança, mas pela dedicação a práticas bem consolidadas que, por milhares de anos, mostraram resultados frutíferos.

Uma pergunta muito frequente é: "No que os budistas acreditam?" A crença reside no âmago da tradição judeu-cristã e, por esse motivo, supõe-se que o Budismo também esteja alicerçado na crença e de que o Buda Shakyamuni é o equivalente budista de Jesus ou Maomé.

Na realidade, o Budismo lida com um modelo completamente diferente. Os budistas não veneram o Buda; mais propriamente, nós o consideramos como um exemplo do que cada um de nós pode conseguir se, de maneira bem literal, dedicar toda a sua atenção a isso. O Budismo não sugere nenhuma divindade absoluta que irá melhorar as coisas, mas, em vez disso, proporciona a nós o software mental de que precisamos para melhorar as coisas para nós mesmos e, com certeza, para os outros.

O subtítulo deste livro, "Como Encontrar a Felicidade num Mundo de Incertezas", refere-se a um processo deliberado. Se quisermos aprender a tocar piano ou melhorar nosso jogo de golfe, sabemos que não basta simplesmente possuir o equipamento certo. Temos que aprender como usá-lo, passo a passo, praticando as técnicas relevantes até conseguirmos um certo domínio. O mesmo acontece com a nossa mente, na qual os efeitos das práticas budistas são observáveis, replicáveis e mensuráveis.

Um caminho de felicidade

Por onde começar, se quisermos conhecer esse caminho, ao mesmo tempo antigo e avançado, prático e transcendente, radical e profundamente tranquilizador? Dizem que o Buda Shakyamuni transmitiu 84 mil ensinamentos durante a vida, mas, para grande sorte nossa, a essência deles foi condensada por Atisha, um dos mestres mais importantes do Budismo, que levou o Budismo da Índia para o Tibete. Os ensinamentos de Atisha são conhecidos como Lam Rim, cuja tradução aproximada é "o Caminho para a Iluminação". Dentro do Budismo tibetano há muitas escolas diferentes, cada qual com sua própria ênfase e terminologia. Embora algumas atribuam maior importância ao Lam Rim, enquanto texto, do que outras, os ensinamentos contidos nele são preciosos para todas.

Budismo para Pessoas Ocupadas oferece uma introdução aos ensinamentos essenciais do Budismo. Este livro não aspira a dar uma explicação abrangente, que já se encontra disponível em muitos livros diferentes, incluindo o insuperável Path to Enlightenment do meu próprio mestre, o Geshe Acharya Thubten Loden. Nessa altura é também importante dizer que eu não me considero, de modo algum, um "profissional", isto é, um professor, lama ou monge. Espero, exatamente por esse motivo, que este livro possa ser útil para o seu público alvo, as pessoas ocupadas, uma vez que eu também me encontro entre elas.

Ao contar minha própria história, de uma típica pessoa ocupada, traçando as linhas gerais dos ensinamentos Lam Rim e mostrando como eles me ajudaram, espero sinceramente que você encontre neste livro alguma coisa de valor. Talvez alguns conceitos e técnicas o surpreendam pela sua utilidade, enquanto outros possam parecer menos proveitosos. E está bem assim. O Budismo se apresenta muito mais "à la carte" do que em cardápios prontos de preço fixo. Faça as práticas que funcionam para você pessoalmente, no seu momento atual, e deixe as outras de lado.

Por ser um relato pessoal, ele envolve pessoas de verdade. Com o objetivo de não expor a privacidade delas, eu mudei alguns nomes. Mas com certeza não me permiti nenhuma licença ficcional com o Lam Rim.

Explicar os ensinamentos budistas, ou o Dharma, tal como são conhecidos coletivamente, é um pouco como tentar descrever uma tapeçaria magnificamente bordada em termos dos fios separados dos quais ela é tecida. São tamanhas as inter-relações, que é difícil desemaranhar um fio sem considerar os outros. Quer o Budismo seja um assunto completamente novo para você, quer já tenha familiaridade com o Lam Rim, minha esperança é que você encontre, nos ensinamentos citados por mim, fontes novas de iluminação.

A Iluminação pode parecer muito distante; a maioria de nós pode apenas especular sobre o seu significado. Mas o Lam Rim é também o caminho da felicidade e isso podemos compreender melhor. Não se trata da felicidade de vida curta, mundana, que todos nós já sentimos e perdemos tantas vezes em nossa vida, mas de uma serenidade duradoura e sincera, um senso de significado que transcende os limitados interesses pessoais e abrange o bem-estar de todas as pessoas à nossa volta, uma experiência de nossa natureza fundamental como sendo imaculada, ilimitada e além da morte.

Pois é a palavra do Buda que, como o lótus, nosso destino é uma futura radiância, além de tudo que podemos conceber no presente, na medida em que subimos acima do pântano para atingir a felicidade suprema da transcendência.

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