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Setembro azul: mês de comemoração nacional da comunidade surda

[Via Correio do Estado]

Canto dos pássaros, sirenes, músicas, aplausos, conversas. Sons comuns do dia a dia não fazem parte da vida de quem é surdo. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de nove milhões de pessoas têm deficiência auditiva no Brasil, entre elas, 11% são jovens de até 19 anos. Hoje, dentro do Setembro Azul, estas pessoas comemoram o Dia Nacional do Surdo, alusivo às várias conquistas ao longo dos anos para oferecer a elas mais qualidade de vida.

Em Campo Grande, o Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS) promoverá um evento de integração com estudantes surdos da Rede Estadual de Ensino, juntamente aos profissionais que os atendem. Será uma tarde de atividades variadas, como teatro, brincadeiras e gincanas, finalizando com um lanche coletivo.

SUPERAÇÃO

Até os 8 meses, os sons eram realidade na vida da campo-grandense Dayanne Lemes Dolores de Oliveira. Até que uma infecção no ouvido apareceu. “Tomei antibióticos fortes, que prejudicaram minha audição, tornando-me surda profunda. Minha mãe não percebeu este fato, somente minha avó, Inês. Ao brincar comigo e meu primo ouvinte, ela viu que somente ele respondia aos seus chamados. Então, pensou que havia algo de errado e logo avisou minha mãe para que me levasse ao médico.”

O diagnóstico de surdez profunda abalou os familiares, já que era uma criança muito nova. “Minha mãe ficou muito angustiada com tudo o que estava acontecendo, pensou que eu nunca a chamaria de mãe e que não seria capaz de me desenvolver”. Porém, o pai sempre a encorajou e dizia que a menina seria capaz de superar toda limitação. Foi então que a levaram a um especialista em São Paulo e depois providenciaram acompanhamento de uma fonoaudióloga em Campo Grande.

Hoje, aos 31 anos, Dayanne olha para trás e vê o quanto a mobilização familiar e sua dedicação aos estudos fizeram a diferença para ter a vida que leva hoje. “Quando eu tinha seis anos, tive o primeiro acesso à Libras [Língua Brasileira de Sinais]. Quando cheguei na escola, vi muitas crianças movimentando as mãos e inicialmente fiquei muito assustada. As outras crianças me ajudaram a ter o contato com a língua e assim fui me desenvolvendo e aprendendo”.

Em 1998, Dayanne começou a frequentar uma Escola de Ensino Regular Inclusiva e lá tinha intérprete de Libras. “Na sala, eu era a única aluna surda. Às vezes, ficava triste, com saudades da outra escola, onde tinha contato com mais surdos e nos comunicávamos em Libras, mas, mesmo assim, continuei, me esforcei e percebi que os alunos ouvintes ficavam curiosos, pois a língua era novidade na sala de aula. Com o tempo, começaram as trocas, eu ensinava para eles”, conta.

Depois disso, vieram o Ensino Médio e a formação superior em Letras-Libras (Licenciatura) pela UFGD e, em seguida, a pós-graduação em Libras e em Educação Especial Inclusiva. “Em 2006, um ano após ter terminado o Ensino Médio, comecei a trabalhar no CAS, onde continuo trabalhando até hoje”.

Esforçada na vida profissional e pessoal, a professora tornou-se mãe, tirou a CNH, comprou casa e carro e procura levar uma vida normal. “Minha luta sempre foi pela acessibilidade linguística em todos os setores da sociedade e sinto muito orgulho de todos os surdos; tenho um irmão, o Daniel, que também é surdo, e percebo que não existem barreiras  na minha família, existe a troca”.

EDUCAÇÃO

Para Cláudio Luiz Vasques dos Santos, gestor pedagógico do CAS, o principal problema de aprendizagem do surdo não está ligado ao cognitivo, mas à língua. “A principal barreira que os surdos enfrentam é a linguística, visto que sua primeira língua é a Libras e a escola ministra suas aulas em Língua Portuguesa. Nas escolas estaduais de MS, essa barreira é eliminada com a presença do profissional intérprete de Libras na sala de aula, como garantia  de acessibilidade linguística aos alunos surdos”.

Com uma vida marcada por superações e conquistas, Dayanne cita que há ainda muita coisa a ser feita em favor dos surdos, nas mais diferentes áreas. E dá um exemplo. Para ir a uma consulta médica, é sempre uma dificuldade, já que grande parte dos médicos não domina Libras e nos consultórios não há a presença de um Tradutor e Intérprete da Língua de Sinais (Tils). “Imagine ir a um ginecologista e ter que levar um Tils!”.

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