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Turismo para observação de pássaros ganha força em Corumbá

Mais de 800 pessoas já contribuíram em MS para ajudar a catalogar as aves que passam pelo Estado

Todos os dias, em diferentes horários, existem mais de 600 vozes diferentes que surgem do céu, em cima de árvores e nos telhados.

Os pássaros sempre estão cantarolando e se comunicando. Eles encantam e chamam a atenção de quem quiser ouvi-los e percebê-los.

Em Mato Grosso do Sul, diferentes grupos decidiram se encantar e ir a fundo nessa conversa com os pássaros, os observadores de aves.

O Estado, por conta de sua riqueza natural, já é reconhecido nacional e internacionalmente no âmbito da observação de aves.

A lista de aves no País é composta por 1.971 espécies, segundo levantamento mais recente, divulgado em agosto, e Mato Grosso do Sul é moradia (de passagem ou permanente) de 630 espécies, algo em torno de 30% das aves que existem no Brasil.

Não é à toa que, diante de tanta diversidade, o interesse e a preocupação em não só observar, mas também em preservar, existe. O ato de entender melhor essas aves exigiu até um verbo para ser chamado de seu.

Quem se engaja e estuda, seja profissionalmente, seja de forma amadora, o universo dos pássaros vai passarinhar.

Uma palavra que – por que não? – tem tudo a ver também com a memória do poeta pantaneiro Manoel de Barros, famoso por pintar o Pantanal e as aves em suas poesias.

A beleza que Manoel de Barros cantou em versos hoje em dia tem um engajamento ainda maior e mais organizado.

Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, dezenas de observadores se mobilizam ao longo do dia 9 de outubro e vão passarinhar em uma data que é chamada de Big Day.

Essa é uma espécie de celebração em que, no mundo, todas as pessoas que gostam de observar aves vão para as ruas, quintais, jardins, praças ou zona rural para encontrar pássaros e listá-los em um sistema compartilhado.

“Pelo eBird, plataforma mundial utilizada, são 856 observadores que já contribuíram com as 6.868 listas de aves submetidas referentes a Mato Grosso do Sul.

Essas plataformas nos dão uma ideia de como a atividade tem sido praticada no Estado, ou seja, podemos extrair uma amostra desse estado da arte do birdwatching em MS.

E é interessante porque isso nos permite analisar a relação entre a observação de aves praticada pelos residentes e a dos visitantes.

O quanto a comunidade residente gosta e realiza determinada prática cultural vai refletir e influenciar no quanto os de fora vão gostar, ou seja, há uma reciprocidade de ações, que se retroalimentam”, detalha a pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites.

Ela, por exemplo, nasceu em Jardim e desde criança aprendeu a viver em meio à natureza e ouvir os sons. Além disso, o município de Jardim tem uma biodiversidade muito grande – um dos locais mais famosos por lá é o Buraco das Araras.

“As aves sempre fazem companhia por lá. E, na minha casa, as aves não eram só companhias físicas, mas ganhavam uma atenção maior com as histórias da mãe, Matilde, que nasceu na fronteira do Brasil com o Paraguai, no município de Porto Murtinho”, relembra a bióloga, responsável por mapear espécies de aves em MS e no Tocantins.

“Com os nomes em guarani e muitas vivências com a natureza, a curiosidade e a imaginação sempre me despertavam para saber quais aves eram aquelas que visitavam o nosso quintal, seus cantos e comportamentos”, continua.

Para quem é adepto da observação de aves, ou birdwatching, envolver-se no chamado Big Day, organizado mundialmente sempre em outubro, é a oportunidade de contribuir para uma ação que valoriza a natureza.

Neste ano, 50 equipes se organizaram para passarinhar ao longo do dia 9 em cidades como Campo Grande, Corumbá, Ladário, Jardim, Bonito, Porto Murtinho, Dourados, Terenos, Rio Brilhante, Sidrolândia, e por aí vai.

“No ano passado, mesmo vivendo uma pandemia, registramos 216 espécies em 24 horas em Mato Grosso do Sul, com 63 participantes que envolveram também suas famílias”, aponta Maristela, que foi uma das coordenadoras do Big Day.

A condição de estar confinado em casa com distanciamento social criou nova possibilidade, que foi observar aves do quintal, da janela, da residência. A natureza, de fato, foi nosso refúgio e agente de resiliência”, finaliza.

Observação de aves se tornou produto para o turismo no Estado

Ser moradia para 30% das aves que estão catalogadas no Brasil faz de Mato Grosso do Sul um local muito atrativo para turistas que desejam passarinhar.

A modalidade no País já engaja pessoas, e o que falta por aqui são guias treinados e especializados para esse tipo de acompanhamento.

Em Corumbá, cidade que fica no Pantanal, até ano passado, somente duas pessoas estavam habilitadas a partir de treinamento para trabalharem como guias.

Neste ano, a Fundação de Meio Ambiente do Pantanal promoveu oficina com 13 pessoas para a iniciação no projeto de formar novos guias com conhecimento para acompanhar turistas.

De 2008 a agosto de 2019, Mato Grosso do Sul recebeu 1.337 visitantes que observaram aves. Os dados constam no Wikiaves, um site especializado na catalogação e na divulgação de espécies.

Em geral, esses turistas querem fotografar aves específicas e também terem contato com a natureza.

“Os moradores, compreendendo a prática e por ela se interessando, podem melhor acolher o turista, compreender suas necessidades e desejos. Sabem indicar onde estão as espécies e como encontrá-las, por exemplo”, sugere Maristela Benites, educadora ambiental e responsável pela oficina de formação de condutores de aves.

Via Correio do Estado

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