[Via Carta Capital]
Com apoio de ataques aéreos da coalizão liderada por Washington e de instrutores de Teerã, o exército iraquiano e seus aliados estão a cerca de 20 quilômetros da periferia de Mossul, a maior cidade em poder do Estado Islâmico.
O “califado” a governa desde 10 de junho de 2014, quando unidades do norte do exército treinado pelos EUA, na maior parte sunitas, derreteram ante a chegada dos jihadistas, entregaram-lhes uma enorme quantidade de armas e equipamentos e parte de seus militares submeteu-se a seu comando.
À época, Barack Obama e Hillary Clinton cruzaram os braços. Viram no evento uma oportunidade de aumentar a pressão sobre Bashar al-Assad e se desfazer de Nuri al-Maliki, o primeiro-ministro iraquiano que exigira a retirada das tropas do Pentágono e conduzia um governo demasiado pró-xiita.
Daí em diante, os fundamentalistas escravizaram, mataram ou expulsaram minorias religiosas e destruíram bibliotecas e monumentos históricos e religiosos, de templos assírios a mesquitas sunitas consideradas idólatras por serem veneradas como santuários ou tumbas de santos e heróis do passado, como a mesquita do profeta Jonas (sim, aquele da baleia).
Nos primeiros meses, apenas os bombardeiros do Irã e os especialistas desse governo e do Hezbollah tentaram ajudar o acuado governo iraquiano. Pressionado pelos EUA, Al-Maliki renunciou em 14 de agosto de 2014.
Só então Washington começou a se mobilizar e em 5 de setembro, anunciou a formação de uma coalizão para promover ataques aéreos ao Estado Islâmico, mas os resultados foram pouco convincentes.
Em fevereiro de 2015, o Pentágono propagandeou com muita fanfarra, de forma contrária a seus hábitos e ao bom senso militar, um plano para a retomada de Mossul entre abril e maio. Nada aconteceu.
Por mais de um ano, a Turquia, integrante da Otan e da coalizão “anti-ISIS” não só permitiu militantes, armas e dinheiro destinados ao Estado Islâmico passarem pela sua fronteira, como negou autorização para ataques ao EI partirem da base de Incirlik, permitiu às tropas fundamentalistas usar seu território para atacar as forças curdas e ativistas pró-curdos e tratou os militantes feridos em seus hospitais. Em 2015, o Estado Islâmico exportava cerca de 3 milhões de dólares por dia em petróleo, vendido a intermediários turcos a preços camaradas e ao menos em parte repassados a rebeldes sírios.

- Milhões de civis entre a cruz e a caldeirinha aguardam uma batalha que pode durar meses (Foto: Thaier Al-Sudani/Reuters)
Apesar de o Pentágono reivindicar a morte de militantes e lideranças, o “califado” expandia-se, promovia-se nas redes sociais, recrutava militantes do Ocidente, recebia recursos da Arábia Saudita e do Catar – cujos governos fechavam os olhos às remessas aos fundamentalistas, se é que não a organizavam – e se firmava na Líbia, Afeganistão, Iêmen e Sinai.
A maré começou a mudar em setembro de 2015, o mês no qual a Rússia iniciou a intervenção direta na guerra civil síria, para a fúria do governo turco. Em novembro, os turcos derrubaram um caça russo que teria momentaneamente cruzado sua fronteira, criando uma ruptura séria entre os dois países.
Semanas depois, o vice-ministro russo Anatoly Antonov acusava os funcionários do governo turco e a família de Recep Tayyip Erdogan de participar do contrabando de petróleo e exibia fotos dos caminhões-tanque cruzando a fronteira.
Apesar de os bombardeiros russos visarem todos os inimigos de Assad e não somente o “califado”, fizeram muita diferença, não só por atacarem as vias de importação de suprimentos e de produção e exportação de petróleo, como por forçarem o Ocidente a agir de forma mais eficaz. Isso, por sua vez, aumentou a necessidade de as forças ocidentais ampliarem a ação contra os fundamentalistas e pressionarem a Turquia a cooperar.
Só então o Estado Islâmico deu-se ao trabalho de retaliar inimigos fora do Oriente Médio, a começar pelo ataque de outubro a um avião de turistas russos no Sinai e os atentados de novembro em Paris. A Turquia sofreu em Istambul, janeiro de 2016, o primeiro ataque efetivo do EI. Os atentados anteriores, inclusive as bombas contra uma manifestação de esquerda em Ancara de outubro de 2015, haviam sido contra curdos e outros inimigos de Erdogan.

Enquanto isso, os jihadistas recuavam em terra. Em março de 2016, foram expulsos pelo exército sírio de Palmira, tomada em maio do ano anterior e pelas milícias xiitas iraquianas de Tikrit, ocupada em junho de 2014. Entre maio e junho, também perderam Fallujah.
No domingo 16, tropas turcas e rebeldes sírios pró-ocidentais tomaram Dabiq, povoado controlado pelo EI desde agosto de 2014 que dá nome à principal publicação da organização. Era de importância simbólica como o Vale do Armagedom da apocalíptica batalha final contra os cristãos, segundo profecias acreditadas pela organização.
Agora, pode ter chegado a vez de Mossul, cuja recuperação significaria o mais sério golpe na credibilidade de Al-Baghdadi. Foi em 29 de junho de 2014, logo após a tomada dessa cidade, que proclamou ter criado um Estado Islâmico, em nome do qual reivindicou o título de “califa Ibrahim” e exigiu a submissão de todos os muçulmanos.
Não se espera uma batalha fácil, embora sejam pelo menos 30 mil soldados iraquianos e milicianos curdos, xiitas e sunitas contra estimados 4 mil militantes do EI na cidade. Esses construíram uma rede de trincheiras, minas e túneis e podem lutar por semanas ou meses.
Em Sirte, na Líbia, o Estado Islâmico resiste desde 12 de maio à tentativa de o governo (teoricamente) de unidade da Líbia assumir o controle da cidade. Em 11 de junho, as forças líbias, cerca de 6 mil combatentes, haviam tomado o porto e cercado os jihadistas, supostamente menos de 200, no centro.

- Enquanto Iraque, curdos e Turquia resolvem suas diferenças, cresce o número de vítimas (Foto: Ahmed Saas/Reuters)
Pois a batalha continua ainda hoje, esquina por esquina, enquanto o general Mohammed Al-Ghasri, de Misrata, responsável pela ofensiva e aliado do governo de Trípoli, discute com o marechal Khalifa Haftar, controlador do litoral a leste em nome do governo central em Tobruk, quem controlará as ruínas que restarem.
O mesmo tipo de disputa pode acontecer em Mossul, em escala muito maior. O governo de Bagdá, liderado pela maioria xiita, aspira a reunificar todo o Iraque, mas os curdos, seus aliados nesta operação, querem um Curdistão independente e nele incorporar a multiétnica Mossul, ou pelo menos os bairros curdos à margem esquerda do Tigre.
A Turquia também parece ter a intenção de entrar na disputa. Contra a vontade do governo do Iraque, mantém desde março de 2015 uma guarnição de 500 homens e dezenas de tanques perto de Bashiqa, a cerca de 20 quilômetros de Mossul, alegadamente para treinar combatentes sunitas contra o Estado Islâmico.
Erdogan desdenhou na terça-feira 11 as manifestações populares em Bagdá contra a presença turca e os protestos do primeiro-ministro iraquiano Haidar al-Abadi, que exigiu sua retirada: “Você não é meu interlocutor, não está ao meu nível. Sua gritaria nada nos importa. Seguiremos nosso próprio caminho e estaremos envolvidos na operação e na mesa (de negociação) depois. Não podemos ser excluídos”.
Ao mesmo tempo, jornais governistas turcos publicaram mapas referentes à reivindicação territorial do Pacto Nacional de 1920, quando as lideranças rebeladas contra a partilha da Turquia pelos aliados esperavam anexar o que é hoje o Curdistão iraquiano.
Para a Turquia, o retorno de Mossul às mãos de Bagdá seria incômodo por prestigiar o poder xiita e o Irã e o surgimento de um Estado curdo forte intolerável, por incentivar o separatismo de seus curdos. Salvo um veto decidido da Otan, é concebível que a Turquia tente ocupar a região e complique o quadro ainda mais.