[Via Folha de São Paulo]
Para gravar o clipe de “Camarim”, uma faixa prévia de seu segundo álbum, a cantora e compositora Camila Garófalo se rodeou de mulheres.
O movimento natural de parcerias com suas amigas do meio, percebido mais claramente naquele momento, em 2016, serviu de embrião para a Sêla, uma marca criada para formalizar o coletivismo feminino na cena musical.
Seja como um selo, um coletivo ou um festival, a premissa é única: lugar de mulher é no palco –e onde mais ela quiser.
O projeto sai do idealismo e dá seu primeiro passo em busca da representatividade no mercado. Em cinco dias, a partir desta quarta (1º), dez shows, DJ sets e rodas de conversas compõem a programação de um festival que ocupa, principalmente, o Centro Cultural São Paulo.
O elenco foi pensado levando em conta a pluralidade do gênero feminino, diferentes raças, identidades e orientações sexuais.
Na mesma leva estão a cantora e compositora Tiê, a MC Luana Hansen, a multi-instrumentista Anna Tréa, as cantoras transexuais Raquel Virgínia e Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, e a própria Garófalo, entre outras que sustentam a programação, como a rapper Tássia Reis.
SÊ-LA
"Há dois significados para o nome. O primeiro, feminino de selo. O segundo, essa ideia de a mulher 'ser ela', de se colocar no lugar da outra e ser complacente com toda a opressão que ela já pode ter sofrido", explica Garófalo, que é amparada por uma equipe de publicitárias, produtoras, designers e jornalistas na idealização do projeto.
"Quando a gente fala de mulher, é legal trazer o plural que existe nisso, as nossas demandas e pautas são muito diferentes", diz Raquel. Sua parceira nos vocais d'As Bahias, Assucena completa: "A questão não é nem dar a voz para cada mulher, mas, sim, respeitar o lugar de fala".
De cunho feminista, o evento também pretende destacar profissionais que não necessariamente estão à frente no palco, mas que desempenham funções nos bastidores.
"A mulher tem que ocupar todos os lugares, e não só esses que a sociedade diz que lhe cabem", diz Hansen.
A MC é conhecida por emergir da cena hip-hop e confrontar a cultura libertária com o que nela há de machismo –um de seus maiores sucessos, "Flor de Mulher", veio em resposta a "Trepadeira", de Emicida. Na última semana, a artista compôs uma paródia feminista do funk "Deu Onda", do MC G15.
Para a instrumentista Anna Tréa, se há algo que diferencia as mulheres dos homens na habilidade musical é a oportunidade. "Os caras são sempre convidados a se exercitarem. O que nos separa na função é a prática", diz. "E, depois, exigem de nós coisas que não conseguimos exercitar o tempo todo", completa.
Tréa confessa que nem sempre percebeu a discriminação no meio, o que passou a ficar cada vez mais evidente com o tempo.
Ela conta que já teve os amplificadores desligados durante um show, após ter feito um pedido a um técnico de som, que questionou seus conhecimentos.
A queixa é comum entre as artistas, que ressaltam a necessidade de um cenário em que possam tomar decisões e serem respeitadas.
*
FESTIVAL SÊLA
QUANDO de 1º a 5/2
ONDE Centro Cultural São Paulo, r. Vergueiro, 1.000, e outros lugares (veja em facebook.com/selamusical )
QUANTO de R$ 15 a R$ 20