[Via Correio do Estado]
Glândio Xavier é um engenheiro civil sul-mato-grossense que sempre desejou trabalhar com obras que tivessem a ver com o desenvolvimento de cidades.
Projetou a Igreja Matriz de Anastácio, trabalhou na Secretaria de Obras da Prefeitura de Campo Grande, foi professor na área da UFMS e continua se aperfeiçoando.
Nesta entrevista, ele relembra várias situações do passado em Campo Grande ligadas às obras, à plantação de árvores e dá opinião sobre problemas recentes que afetam a Capital sul-mato-grossense.
CORREIO PERGUNTA - O senhor é engenheiro civil e já fez parte da administração pública municipal nos tempos do prefeito Levy Dias, antes da divisão do Estado. Poderia explicar ao leitor em quais áreas?
GLÂNDIO XAVIER - Trabalhei na gestão de Levy Dias e depois continuei na de Marcelo Miranda - (1974-1979) - até a divisão do Estado. Minha atuação no município, principalmente na gestão de Levy Dias, foi bastante diversificada.
Nós tínhamos um quadro técnico reduzido e quem ficou depois que ele assumiu teve que vestir a camisa. Quando não tinha serviço, a gente procurava. Nisso, trabalhei na Secretaria de Obras, um período na aprovação de projetos de construção, depois desenvolvendo projetos na área de drenagem, orçamentos em todas as áreas, a exceção da pavimentação.
Coordenei o concurso que escolheu o projeto das escolas que o Levy Dias edificou e depois o governador Marcelo Miranda levou para o Estado. Também coordenei fiscalização de obras grandes, como viadutos, e muito participando a nível de sugestões, de participação de reuniões no gabinete do secretariado.
O que foi mais interessante na época, uma área que não era da engenharia civil, mas fui encarregado de adquirir luminárias para a cidade. E o resultado bom é que, na época, conseguimos pagar 60% do valor que outras cidades vinham pagando. Foi uma grande economia.
O senhor já foi chefe da Divisão de Obras da Prefeitura. Atualmente, quais os principais problemas nesta área que o senhor vê em Campo Grande?
No setor de obras a gente vê o que o cidadão comum observa. O primeiro deles, os buracos. Embora esta não seja uma parte onde eu trabalhei e não era o problema da época, porque a área pavimentada de Campo Grande era pequena.
Tanto, que o prefeito Levy Dias encontrou a cidade com um milhão de metros quadrados e executou mais dois milhões. Na drenagem, vejo problemas pontuais; isso é uma coisa que a gente se habituou a olhar e, na época, a gente olhava. Mesmo depois de implantado um projeto, é comum, muitas vezes, que uma boca de lobo não cumpra a função dela, aí o técnico verifica e conserta.
Hoje, verificamos muitas situações desta, em que a enxurrada desvia da boca de lobo. São correções pontuais, que precisam ser feitas e têm que ter uma equipe técnica acompanhando sistematicamente o funcionamento. Boa parte dos buracos no nosso asfalto resultam de falta de adequação.
O projetista tem normas a seguir, mas a natureza, às vezes, faz pequenas diferenças que precisam ser corrigidas. Não é um volume tão grande de ocorrências, mas existem. Na época, a gente tinha um problema muito sério, que era a obstrução dos tubos das bocas de lobo.
Eu não sei como é que estaria isso hoje. As pessoas, naquela época, deixavam restos de aterros - hoje não tem mais material de construção nas calçadas por causa das caçambas, o que foi um avanço.
Se fosse apontar uma solução prioritária para a questão da drenagem, qual seria?
A drenagem, como a gente a encara como a eliminação da água, na retirada rápida da água, penso que já esteja esgotado. Porque os fundos de vale que nós temos estão, muitas vezes durante o ano, se mostrando insuficientes. Agora, precisa copiar a natureza.
Quando havia só massa, a chuva caía e era retida, tinha onde permanecer, desde as folhas das árvores, as folhas secas no chão, ela infiltrava e chegava ao seu destino final, que é o fundo de vale, muito pouco pela superfície, a maior parte pelo solo.
Com a alta impermeabilização, a cidade cresceu, não é possível se pensar em aumentar os canais, em refazer drenagem aumentando a tubulação. Hoje, a técnica que se utiliza é a de copiar a natureza, tem que reter o máximo possível parte da chuva que cai, a parte mais intensa, se possível procurar reter com pequenas ou grandes obras, mas não obras que sejam necessariamente tão caras.
Por exemplo, no campo, o terraceamento, a curva de nível, faz isso. Na cidade não é possível, mas aí entra a criatividade e a possibilidade até da participação de cada munícipe com a sua propriedade, com a sua moradia. Em São Paulo, por exemplo, existem os piscinões para reter a água.