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El Niño deve voltar em 2026, mas força do fenômeno ainda divide especialista

Modelos climáticos apontam alta probabilidade de retorno do El Niño no segundo semestre

A possibilidade de retorno do El Niño no segundo semestre de 2026 ganhou força nas projeções climáticas mais recentes. A formação do fenômeno já é tratada como altamente provável, mas a intensidade ainda está em aberto. No centro da atenção dos meteorologistas está um evento atmosférico previsto para os próximos dias no Pacífico, que pode reforçar o aquecimento das águas e até acelerar a chegada do El Niño.

Esse evento é conhecido como estouro de vento de oeste, ou Westerly Wind Burst (WWB). Trata-se de rajadas anormalmente fortes que sopram de oeste para leste e alteram a circulação atmosférica e marítima na faixa tropical do oceano. Na prática, esse movimento pode intensificar o aquecimento na porção central do Pacífico.

O fenômeno rompe o padrão dos ventos alísios, que normalmente atuam de leste para oeste ao longo do Pacífico equatorial. Esses ventos empurram as águas mais quentes em direção à Ásia e ajudam a manter águas mais frias perto da costa da América do Sul. Quando esse padrão é interrompido, o ambiente fica mais favorável ao desenvolvimento do El Niño.

Sinais já estão aparecendo

Segundo a meteorologista Estael Sias, da MetSul, essa configuração dos ventos já aparece de forma consistente em diferentes modelos climáticos e também vem sendo observada por meteorologistas de outros países. Ela afirma que, quando vários episódios de WWB acontecem em sequência, o efeito pode se acumular e funcionar como um gatilho atmosférico, acelerando a transição para o El Niño e aumentando sua força.

O aquecimento anormal das águas do Pacífico é a principal carcacterística do El Niño. No Brasil, o fenômeno costuma alterar o regime de chuvas e temperaturas. Entre os efeitos mais conhecidos estão o aumento do risco de seca nas regiões Norte e Nordeste, além da porção norte do Centro-Oeste e do Sudeste, e a maior ocorrência de chuva no Sul do País.

Essas mudanças também costumam trazer reflexos para a agricultura e elevar o risco de eventos extremos em diferentes regiões. Entre eles, estão ondas de calor no Centro-Oeste e Sudeste, além de maior probabilidade de queimadas e enchentes.

Probabilidade é alta, mas intensidade ainda é incerta

As previsões mais recentes indicam que o El Niño pode se estabelecer entre o fim do outono e o começo do inverno. Um boletim divulgado em 16 de março pelo Centro de Previsão Climática da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta 62% de probabilidade de formação do fenômeno no trimestre entre junho e agosto. Até o fim de 2026, a chance passa de 80%.

Antes disso, entre março e maio, a tendência é de transição da La Niña para uma fase de neutralidade climática, quando não há predominância nem de La Niña nem de El Niño.

O aquecimento global também influencia o cenário. Isso porque grande parte do calor retido no planeta é absorvida pelos oceanos, o que pode favorecer a ocorrência natural do El Niño.

Estael Sias afirma que muitos modelos de clima vêm indicando a possibilidade de um El Niño pelo menos forte e, em alguns casos, até muito forte, em um patamar comparável ao chamado Super El Niño. Ainda assim, ela ressalta que o atual período é marcado por incertezas e que um cenário mais claro sobre duração e intensidade deve aparecer a partir de maio.

Especialistas pedem cautela

Apesar da alta probabilidade de retorno do fenômeno, outros especialistas defendem mais cautela ao tratar da intensidade. O meteorologista e pesquisador Guilherme Borges avalia que ainda é subjetivo afirmar, neste momento, que haverá um Super El Niño.

Segundo ele, este é justamente um período do ano em que os modelos meteorológicos têm pior desempenho, o que exige mais prudência nas projeções. O especialista afirma que, sem esse cuidado, o risco de erro é elevado.

Na mesma linha, o coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, diz que ainda há grande divergência entre os modelos em relação à força do fenômeno. Para ele, embora alguns cenários indiquem a possibilidade de um Super El Niño, a maior parte das projeções oficiais ainda não aponta essa tendência de forma consolidada.

ntensidade do El Niño, por si só, não permite prever automaticamente o tamanho dos impactos. Segundo ele, os efeitos dependem da interação com diversos outros fatores atmosféricos e regionais.

Isso significa que, mesmo que um Super El Niño se confirme, não é possível afirmar desde já que o Brasil enfrentará novas enchentes no Rio Grande do Sul ou uma seca severa na Amazônia. Esses episódios podem se tornar mais prováveis, mas a previsão de eventos extremos específicos só pode ser feita com poucos dias de antecedência.

O que já é possível afirmar

Neste momento, o consenso entre os especialistas é de que o retorno do El Niño em 2026 se tornou uma possibilidade concreta. O que ainda não está definido é a intensidade do fenômeno nem o alcance real de seus efeitos sobre o clima no Brasil.

Esse é justamente o ponto mais importante no debate atual: embora os sinais no Pacífico reforcem a tendência de aquecimento, os meteorologistas ainda evitam conclusões definitivas antes da consolidação dos próximos dados.

Via Capital News

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