Geral

Duas é demais

[Via Correio do Estado]

Manter-se no ar por 46 anos é um grande feito para qualquer programa de televisão, principalmente quando não se trata de um telejornal. Não à toa, o “Globo Repórter” é visto como um espaço nobre entre os jornalistas da Globo. Além da tradição na grade da emissora, há a vantagem de se tratar de uma produção semanal e que, por ocupar uma faixa de apenas 50 minutos da grade – no ar, excluindo os comerciais, normalmente são 10 minutos a menos –, consegue ser produzido com muito mais cuidado e qualidade que outro produto com mais tempo e dias de exibição. Por outro lado, é nítida a dificuldade da equipe em inovar. Seja na escolha das pautas ou na apresentação do formato. A última mudança aconteceu com a aposentadoria de Sérgio Chapelin e a entrada de Sandra Annenberg, que agora divide com Glória Maria a apresentação do programa. Literalmente.

Exatamente por se tratar de um programa semanal, de curta duração e com poucas aparições no estúdio, fica difícil entender a necessidade de ter duas pessoas apresentando. Afinal, a função de Glória e de Sandra ali, muitas vezes, se resume a anunciar as imagens que serão exibidas em seguida, a cada bloco. Talvez se fossem outros profissionais, isso não chamasse tanta atenção. Mas ambas são jornalistas bem-sucedidas, com coberturas históricas no currículo, Sandra como âncora e Glória como repórter. E as rápidas aparições na apresentação do “Globo Repórter” parecem pouco perto de tudo que as duas têm a oferecer. Seria muito mais interessante, por exemplo, tê-las nas reportagens, já que é o repórter quem mais aparece. A impressão que se tem é de que a Globo coleciona âncoras demais para poucos programas jornalísticos – e isso porque alguns nomes já migraram para o entretenimento, como Fátima Bernardes, Tiago Leifert e Fernanda Gentil, entre outros.

A verdade é que a saída de Chapelin e a apresentação em dupla não foram suficientes para dar um ar mais moderno ao “Globo Repórter”. O programa não é ruim, mas parece parado no tempo. É claro que, em função de sempre abordar um único tema por programa, é possível aprofundar melhor os assuntos e apresentar diversos desdobramentos. Mas a dinâmica poderia ser mais ágil, a exemplo do que acontece no “Profissão Repórter”. É provável que muitos episódios do “Globo Repórter” pudessem ser reduzidos a um quadro do “Fantástico”, sem que se perdesse muito de sua essência.

A escolha das pautas também cria certa sensação de “déjà vu”. Na maior parte das vezes, é um revezamento entre os muitos mistérios do corpo humano e destinos turísticos para uma viagem. É claro que, nesse segundo caso, o resultado é normalmente uma fotografia deslumbrante. Porém, o formato não é de um programa de turismo – e a própria Globosat tem em seus canais fechados algumas atrações nesse segmento que se já se destacam. Na verdade, o “Globo Repórter” parece bem mais interessante para os profissionais que estão à frente das reportagens do que para os telespectadores que assistem.

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