Capital ignora população de capivaras, hospedeiro do carrapato que transmite a febre maculosa
Presente nos principais parques e universidades de Campo Grande, espécie não tem nenhum tipo de controle ou monitoramento por parte do poder público.
Campo Grande é conhecida pelo seu grande número de capivaras. O animal se tornou o mascote da cidade e está presente às margens de rios e lagos dos principais parques do Estado. No entanto, o maior roedor do mundo e um dos hospedeiros do carrapato-estrela, que transmite a febre maculosa, não possui um monitoramento por parte do poder público.
Considerando a grande população de capivaras e a suspeita da doença no município, o Correio do Estado entrou em contato com o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) e o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), a fim de obter um levantamento sobre a espécie. No entanto, a prefeitura de Campo Grande informou que o monitoramento dos animais era feito pela Embrapa.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Dr. Renato Andreotti, essa não é uma função desempenhada pela empresa. “Nós estudamos os carrapatos, os agentes transmitidos por eles e a ecologia. Além disso, fazemos alguns trabalhos de educação nas escolas e universidades”, explicou Andreotti.
O pesquisador afirmou que o monitoramento deveria ser feito pelo poder público já que as capivaras estão presentes nos principais parques e áreas públicas. “No Parque dos Poderes tá cheio de capivaras, então isso deveria ser feito pela secretaria de meio ambiente. Cadê a prefeitura mostrando o que elas fazem com as capivaras? Não tem. É preciso montar um projeto de pesquisa”, afirmou.
Além disso, Andreotti explicou que a febre maculosa é uma doença dentre as muitas possibilidades que o carrapato tem de transmitir. “Nós vimos que aqui na região circula o agente da febre maculosa pelo menos em quatro espécies de carrapatos. O carrapato-estrela ele pica os animais e o ser humano, mas existe uma circulação dos agentes nos animais silvestres e domésticos”.
O pesquisador afirma que é preciso manter as pessoas longe dos espaços que habitam as capivaras. “A população da capivara aumentou muito aqui no Mato Grosso do Sul, existe uma 30 espécies de carrapatos, cada carrapato tem o hospedeiro preferencial, quanto maior for o animal, mais ele produz carrapato, e o carrapato-estrela produz muito na capivara”, explicou.
Andreotti ressaltou que o índice de mortalidade por febre maculosa é significativo. “De acordo com a estatística do Ministério da Saúde, 40% das pessoas que têm diagnóstico morrem e têm antibiótico para tratar, então a pessoa morre por falta de informação. Se contaminou, não prestou atenção, ficou doente e não teve o diagnóstico adequado. Isso é muito sério!”, alertou.
Conforme noticiado pelo Correio do Estado, 12 pessoas foram diagnosticadas com a doença entre 2012 e 2022, mas apenas seis casos foram confirmados. Não existem óbitos e nenhum animal foi diagnosticado com a doença neste período. De acordo com a Sesau, o último caso foi registrado em 2018.
Apesar do baixo índice de contaminação, o pesquisador destacou que o potencial de novos casos é grande. “Aqui em Mato Grosso do Sul tem poucos casos de febre maculosa, mas o potencial para acontecer mais é grande pois tem vários carrapatos que circulam com o agente. Não existe educação ambiental e um plano de manejo das capivaras, eu não vejo os parques com uma sinalização adequada. Então, enquanto as coisas não forem organizadas o risco é grande”.
De acordo com a professora do curso de medicina veterinária na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Thyara de Deco Souza, o controle de carrapatos em animais silvestres é um manejo complicado de ser feito. “O mais eficaz é educação para a população. Evitar locais gramados e com folhas onde há trânsito de capivaras para evitar se infestar com o carrapato”, explicou.
Caso suspeito
Uma criança de um ano de idade está internada em um hospital de Campo Grande sob suspeita de febre maculosa. A informação foi repassada pela Secretaria Municipal Saúde da Capital (Sesau) na última segunda-feira (19).
De acordo com a Sesau, a suspeita foi notificada pela equipe médica do hospital após o menino apresentar alguns sintomas característicos, como febre, náuseas, vômitos e dores no corpo.
“A Secretaria apura uma notificação de um paciente internado e com histórico de viagem ao interior. Este paciente apresenta sintomas comuns, sendo considerado um caso suspeito devido ao histórico, contudo sem sinais claros que o enquadre como caso provável”, informou em nota.
Conforme apurado, o menino teria viajado no fim de semana para Guia Lopes da Laguna, região sudoeste de Mato Grosso do Sul, onde teve contato apenas com animais domésticos, tanto na área urbana quanto na rural.
Exame
De acordo com a Sesau, uma primeira amostra foi coletada e encaminhada para análise no Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen). “É importante ressaltar ainda que diversos exames foram coletados com o objetivo de haver um diagnóstico mais preciso sobre o quadro clínico do paciente”.
Já a segunda coleta será enviada ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, para análise. O laboratório paulista é referência e foi responsável por fazer a confirmação das duas últimas mortes pela doença.
A previsão é que a segunda amostra de sangue seja coletada somente em 1º de julho, quando irá completar 15 dias desde a primeira coleta, conforme protocolos clínicos, e seja encaminhada simultaneamente para o hospital, informou a Sesau.
Via Correio do Estado
