[Via Folha São Paulo]
O FMI (Fundo Monetário Internacional) ao longo dos anos vem sendo criticado por suas bizantinas intrigas internas, com diretores autoritários de departamentos defendendo zelosamente o seu território em detrimento da missão mais ampla da instituição.
Agora, novas disputas internas foram reveladas e elas voltam a despertar dúvidas sobre a cultura da instituição e sobre sua capacidade de cumprir a promessa de se tornar mais transparente.
No trimestre passado, o Escritório Independente de Avaliação, uma unidade autônoma do Fundo cuja missão é avaliar todos os aspectos da conduta e das políticas do FMI, divulgou uma avaliação de 86 páginas sobre o desempenho do FMI durante a crise da dívida europeia.
O relatório foi incomumente franco em sua crítica à maneira pela qual o FMI lidou com os problemas da dívida da Grécia. Funcionários da instituição se deixaram intimidar por colegas europeus, permitiram que sinais iniciais de desgaste passassem despercebidos e não fizeram o bastante para lutar por uma reestruturação da dívida, afirma a avaliação.
Mas não foi isso que causou a ira —e intervenção— de importantes dirigentes do Fundo.
Antes que o relatório fosse publicado, há algumas semanas, dirigentes do FMI exigiram que a unidade de fiscalização atenuasse e em alguns casos removesse seções do relatório nas quais era revelado que o Fundo não havia divulgado documentos solicitados pelos avaliadores.
Descrições dessa disputa, que não foi mencionada no estudo final, foram oferecida por diversas pessoas envolvidas no processo mas que não têm autorização para falar sobre ele publicamente.
A unidade de fiscalização tem direito formal de solicitar quaisquer documentos que acredite possam ajudar em suas análises.
Em entrevista, William Murray, porta-voz assistente do FMI, reconheceu que o Fundo passou por discussões sérias com sua unidade interna de avaliação quanto à linguagem usada para descrever de que maneira o Fundo havia reagido a solicitações de documentos.
Mas ele acrescentou que o Fundo tinha o direito de interferir e solicitar mudanças, com base no que ele define como erros factuais.
“Certamente surgiram fricções, ao longo do tempo”, disse Murray, em referência à busca de 16 meses que os auditores internos realizaram por documentos relevantes. “Mas eles solicitaram uma montanha de dados. O Fundo não realizou qualquer esforço consciente para sonegar informações”.
O Escritório Independente de Avaliação preferiu não comentar.
Disputas internas são comuns, em organizações tão grandes e tão politizadas quanto o FMI. Mas sob o comando da diretora executiva Christine Lagarde, reeleita para um segundo mandato de cinco anos alguns meses atrás, o Fundo vem buscando se desburocratizar e se abrir mais ao mundo.
Esforços nesse sentido eram visíveis na reunião anual de final de ano que o FMI realizou este mês. Esta semana viu numerosos painéis de discussão sobre desigualdade de renda, direitos da mulher e maneiras de melhorar a sociedade civil, e elas foram coroadas por uma conversa pública informal entre Lagarde e o escritor Michael Lewis.
À luz de medidas como essas, alguns tradicionais defensores do Fundo se surpreenderam com a resposta do FMI aos seus auditores internos.
"O Escritório Independente de Avaliação foi estabelecido com autorização de acesso a todos os documentos do Fundo", disse Edwin Truman, antigo funcionário do Tesouro dos Estados Unidos que integrou um comitê de especialistas externos formado para tirar conclusões sobre o relatório dos auditores. "Os funcionários e os dirigentes do Fundo não têm direito de reter qualquer informação que eles solicitem".
A unidade de fiscalização foi estabelecida em 2001 com a missão de avaliar os processos decisórios do Fundo, que vinham sendo questionados como resultado da crise financeira asiática de 1997, especialmente pelos países do Sudeste Asiático que estavam sendo forçados a adotar medidas de severa austeridade.
A unidade recebeu autonomia, mas seus funcionários não estavam de maneira alguma interessados em causar problemas. No entanto, um boletim sobre a qualidade dos conselhos dados pelo FMI durante a crise do euro bastou para mexer em diversas feridas.
Desde 2012, quando a unidade primeiro revelou que começaria a estudar as atividades da instituição na zona do euro, seus auditores encontraram resistência, não só de outros funcionários mas de membros do conselho do Fundo que representam países europeus.
Conselheiros franceses e alemães provaram ser inimigos especialmente ferrenhos da investigação, e em alguns casos usaram linguagem forte em reuniões com os dirigentes da unidade, em um esforço para fazê-los abandonar o projeto, a despeito de endossarem publicamente a missão da unidade de auditoria interna.
Quando se tornou claro que a avaliação seria mantida, os membros europeus do conselho perguntaram se não seria possível não divulgar publicamente o relatório, de acordo com pessoas envolvidas no processo.
A oposição à investigação era sentida com mais força no poderoso departamento europeu, que comandou as operações de resgate a Grécia, Irlanda e Portugal.
O líder do departamento europeu, Poul Thomsen, que também foi o arquiteto do resgate à Grécia, se distanciou dos auditores, inicialmente, e o relatório terminou por criticar o trabalho do Fundo na Grécia, embora Thomsen não tenha sido mencionado nominalmente no texto.
Ele acabou colaborando com a investigação, divulgando milhares de e-mails e documentos e aceitando realizar uma entrevista de três horas de duração com Shinji Takagi, o executivo do departamento de auditoria que compilou o relatório.
Thomsen afirmou em comunicado que seu departamento "atendeu completamente a todos os pedidos de informações e documentos apresentados pelo Escritório Independente de Avaliação, sem exceção".
A investigação tinha duas áreas como foco, em particular: os auditores queriam minutas de reuniões informais do conselho realizadas durante a crise, nas quais executivos do FMI explicaram suas ações ao conselho. Também solicitaram documentos sobre uma série de reuniões secretas que dirigentes do FMI realizaram em 2010 para discutir diferentes estratégias sobre como tratar da crise na Grécia.
Os auditores receberam montanhas de informações que relatavam em termos amplos o trabalho do FMI na Europa, mas não obtiveram o que realmente queriam: documentos que esclarecessem por que o Fundo agiu como agiu.
As desculpas variavam.
Por fim, 16 meses depois de terem apresentado sua solicitação inicial, os auditores receberam a maior parte da papelada que haviam solicitado.
Foi então que os dirigentes do FMI começaram a pressionar pela remoção de alguns trechos do relatório, que informavam como havia sido difícil obter a papelada necessária.
Os auditores fizeram algumas mudanças, mas, porque acreditavam não ter recebido todos os documentos, fincaram o pé quanto a manter passagens que criticavam a lentidão do FMI em cooperar.
No começo de julho, o relatório e outros 11 estudos correlatos foram publicados.
Lagarde afirmou em sua resposta que o envolvimento do FMI com a zona do euro foi "um sucesso incompleto". Ela também disse que o Fundo manteria seu compromisso de "prestação de contas, transparência e quanto ao papel do Escritório Independente de Avaliação".