Expogrande perde identidade rural e vira festival de shows em estacionamento
A feira chegou a movimentar mais de meio bilhão em negócios nos tempos áureos com leilões e vendas realizadas
A Exposição Agropecuária e Industrial de Campo Grande (Expogrande) foi considerada por muito tempo a segunda maior feira agropecuária do Brasil, ficando atrás apenas da realizada em Uberaba.
Em 2014, conforme dados divulgados na época, a feira realizada em Campo Grande movimentou R$ 600 milhões em negócios.
Atualmente, a feira foi reduzida a um festival musical que será realizado no estacionamento de um shopping da Capital. Sem que haja os tradicionais leilões, exposição de animais e tecnologias para o setor agropecuário.
Na última edição realizada em 2019, antes da pandemia, os negócios minguaram e a movimentação financeira foi de cerca de R$ 26 milhões. A importância do evento para o calendário nacional chegou a trazer os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva para a abertura da feira que durava mais de 10 dias.
Além da presença anual dos ministros da agricultura.
Segundo a organização do evento, o número de leilões caiu pela metade em 2019. Neste ano, com a retomada das atividades, a “feira de shows” parece ainda mais viva que a versão agropecuária.
A programação musical começou ontem e vai até o dia 30 de abril, os shows vão do sertanejo universitário, passam pela música eletrônica, pagode e chegam ao funk.
INTERDIÇÃO
O presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), Jonatan Pereira Barbosa, afirma que a feira acontece em 2022, mesmo com o pedido de interdição do Ministério Público estadual (MPMS) em fevereiro deste ano.
“Essa ação de interdição [do parque Laucídio Coelho] já conseguimos reverter. Ganhamos no tribunal e, com todo respeito, o Ministério Público pega no pé da Acrissul. Agora, estamos trabalhando em outra ação para reverter a interdição de shows. A grande verdade é que existem outros eventos similares, e eles nem se importam”, declara.
Em fevereiro, a exposição foi adiada por causa de uma ação na Justiça que impedia qualquer atividade no parque de exposições. A decisão dizia que a Acrissul não conseguiu cumprir os termos do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 2011.
Sobre o acordo, o presidente da associação considera ser possível cancelá-lo. “O Ministério Público quer que construamos um muro, mas não tem dimensões de largura, altura, nenhuma especificação técnica. Contratamos uma empresa, mas os valores e as restrições tornaram o projeto inexequível”.
Assinado há mais de 10 anos , o TAC inteiro foi cumprido pela Acrissul exceto a parte do projeto acústico, informa o presidente. “[O acordo] foi assinado antes de mim, e tudo que foi combinado atendemos, menos o projeto acústico, entendemos que as atividades podem voltar e foi a decisão do desembargador neste processo”, comemora.
OUTRA EXPOSIÇÃO?
A parte de negócios, que já foi o real motivo da existência da feira, deve ser realizada entre junho e julho, afirmou ao Correio do Estado o presidente da Acrissul.
“Não temos a data certa, porque ainda não sabemos se teremos shows. Os shows pagam a despesa. A Expogrande é a segunda maior feira do Brasil, e é caro fazer isso. Só perdemos para Uberaba, e lá eles têm forte ajuda de verba pública, nós não temos isso”, justifica Barbosa.
“Não tem nada a ver [duas edições]. O nome existe porque está no contrato. A Expogrande real é a de abril, que a gente gosta. Este ano será exceção por causa do problema com a Justiça. Não tem nada de duas Expograndes”, ressaltou Barbosa.
O presidente ainda afirma que também houve uma mudança na forma como os negócios são feitos.
“Com a pandemia, houve redução natural das raças. O nelore está completamente diferente do que era, [criadores e associações] não querem fazer campeonatos, os critérios estão mudando”, revela.
“Temos de estimular os conceitos de negócios e é o que temos feito. Não podemos dizer que não houve uma mudança na ordem natural das coisas. Estamos tentando maior quantidade de raças de bovinos e equinos”.
“Os leilões também têm mudado muito o critério, eles seguem sendo feitos e, para baratear os custos, passaram a ser virtuais. Nossas atividades não pararam”, comenta.
Apesar da justificativa, outras cidades do País continuam dando a mesma importância rural aos eventos agropecuários. No início deste mês, o presidente Jair Bolsonaro esteve na abertura da Expolondrina 2022.
A exposição da cidade paranaense também figura entre as principais feiras do País e movimentou mais de R$ 615 milhões na edição de 2019.
HISTÓRICO
A exposição agropecuária de Campo Grande é realizada desde a década de 1930. Os eventos começavam durante o dia e fechavam a programação com shows no fim da noite para fechar a programação.
Os principais atrativos eram leilões de gado, lançamento de tecnologias aliadas ao agronegócio, exposição de raças diferenciadas de bovinos, equinos, entre outras espécies, e a comercialização de máquinas como tratores, colhedeiras etc.
Em 2001, a Embrapa levou à feira a tecnologia de identificação eletrônica e rastreamento, um forte mecanismo em favor do rastreamento do rebanho.
Os pesquisadores desenvolveram um chip adequado às condições brasileiras de pastejo, altamente resistente a impactos e que poderia ser aproveitado novamente após o abate do animal.
Em 2018 e 2019, o Correio do Estado trouxe uma série de reportagens que mostraram a insatisfação dos expositores quanto ao perfil da feira.
Segundo pecuaristas mais antigos e que também eram expositores de gado, a Expogrande era conhecida por ser a maior vendedora de bezerros de corte do Brasil, com comercialização de até 30 mil animais. Hoje, esse volume não deve chegar a 5 mil.
Na última edição, realizada em 2019, um expositor que preferiu não se identificar disse à reportagem que “os shows são importantes, assim como diversões infantis e praça de alimentação, mas não podem ofuscar que o evento é na verdade uma reunião para negócios rurais, a exemplo do que acontece em outras cidades de Mato Grosso do Sul”.
