Com demora e adiamentos, pacientes perdem qualidade de vida na espera
Segundo psicóloga consultada pela reportagem, fila pode causar ansiedade e depressão em quem aguarda procedimento
A espera incerta na fila de cirurgias eletivas em Campo Grande prejudica a qualidade de vida e a saúde psicológica dos pacientes.
A luta por atendimento especializado pode durar anos e tortura idosos na Capital. É o caso de Milton Ferreira Rodrigues, 77, que aguarda há dois anos ser chamado para o tratamento, irreversível sem interferência cirúrgica, da hiperplasia prostática benigna (HPB).
A doença é um aumento não canceroso da glândula prostática, isso significa que o problema afeta o sistema urinário e costuma ser comum entre homens a partir dos 50 anos. Ela dificulta o ato natural de urinar e causa dores agudas.
De acordo com estudiosos, a causa exata da doença ainda não é conhecida, mas pesquisas apontam correlação entre alterações causadas por hormônios, incluindo a testosterona.
Para controlar as dores e conseguir urinar, o marceneiro Milton Rodrigues usa um cateter vesical acoplado às vias urinárias. O equipamento é ligado a uma bolsa onde o líquido é armazenado. Ele revela que o apetrecho não pode mais ser retirado antes da cirurgia.
O drama persegue o idoso desde 2018, quando descobriu o problema de saúde. Na época, Milton realizava exames cardíacos para implantação de estendes no coração.
“Sofri um mal-estar trabalhando. Então fui ao hospital El Kadri. Fizeram procedimento e eu melhorei. No decorrer do tempo, começou a surgir mais dor”, acentuou.
Milton descreve o quão desagradável e vergonhoso é usar o cateter e denuncia a falta de assistência médica para lidar com o problema. Ele conta que nunca foi orientado sobre como usar o equipamento e sobre a periodicidade da troca da bolsa.
“Eu comecei a usar e não tive um acompanhamento médico. Tinha o atendimento daquele médico que fica de plantão no posto. Eles que colocam isso aí, mas tinha uma data certa pra você tirar e fazer a troca. Eu não sabia disso, nunca explicaram como usar. Sangrava muito e vazava demais. Eu passei muita vergonha com isso aí”, pontuou.
Depois da primeira consulta no Hospital Geral El Kadri, Milton foi encaminhado para o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (HU), mas, ao chegar ao local, foi surpreendido pela falta do atendimento urológico.
Em 2019, foi direcionado ao Centro de Especialidades Médicas (Cemed), da Universidade Anhanguera Uniderp, onde Milton conseguiu entender sobre a sua doença.
Além da dor e das dificuldades para trabalhar, o marceneiro evidencia a ausência da bolsa de coleta de urina nas unidades básicas de saúde.
“Às vezes, eu chegava em um lugar, mas não tinha os apetrechos. Tinha o cateter, mas não tinha a bolsa, aí eu comecei a comprar”, pontuou.
Com a falta dos itens, o aposentado relata ter se endividado para comprar os aparelhos e os medicamentos exigidos pelos médicos.
O idoso chegou a tomar 12 tipos diferentes de remédios, de uso diário, para conseguir lidar com a HPB e manter a boa saúde do coração. As substâncias em excesso causaram desmaios e confusões mentais.
“Antes da pandemia, ficava nessa briga, ninguém sabia o que fazer. Comecei a ter problema com essa quantidade de remédio que eles iam me dando. Gastava quase R$ 400,00 por mês. Os remédios não tinham no SUS, meus filhos ajudavam, mas eu não queria atrapalhar ninguém”, frisou.
O CASAMENTO
O aposentado narra o enredo de companheirismo que vive com a esposa, Elizabete Aparecido, 77 anos, há mais de 50 anos de casados, e diz que ela foi a chave para a sua lucidez. O casal tem cinco filhos, 12 netos e dois bisnetos.
Ela relata que os dois não conseguem viver uma vida “normal”, em razão dos problemas de saúde do marido. “A gente sai para dançar, às vezes, cantamos na igreja, no coral, mas não vivemos uma vida normal, as coisas de casal”.
Elizabete conta que Milton chegou a cair em casa, por conta da dosagem dos remédios, e que o aposentado se preocupa em não alarmar a esposa. “Ele não gosta de me preocupar, mas eu me preocupo”.
PSICOLÓGICO
O marceneiro conta que o estado de saúde chegou ao extremo este ano. “Chegou a um ponto em que eu não estava suportando. Eu não conseguia nem andar de bicicleta. A patroa que me ajudava. Caí várias vezes aqui dentro, até hoje não estou seguro”.
Sobre a limitação física do aposentado, ele descreve o ritmo das atividades diárias.
“Eu trabalho, menos do que antes, mas trabalho. Só que há outros inconvenientes, certas coisas eu não posso fazer, eu não posso pegar peso. Eu fico limitado. Às vezes, eu quero fazer certas coisas, até brinco com a mulher ‘poxa, meu tempo já era, meu tempo assim de casal’. Ela conversa muito comigo nesse ponto”, explicou Milton.
A psicóloga Stephanie Santos Mansour, especialista em Psicoterapia de orientação psicanalítica, esclarece que a espera excessiva pode acarretar em um quadro de ansiedade exacerbada e muitas fobias, inclusive alimentares.
“A situação é muito delicada, pode levar a fobias ligadas à ansiedade, a fobias de vícios nos analgésicos, tentativas de fazer talvez a dor parar de outras formas, usando drogas e álcool em excesso, inclusive a própria depressão”, avalia.
Stephanie ressalta que pessoas afetadas com o problema são indivíduos de classe média baixa e, consequentemente, que precisam trabalhar para sustentar a família. Além das doenças mentais, a espera por atendimento pode colaborar para o aparecimento de pensamentos como o de inutilidade.
“Às vezes, as pessoas não conseguem mais trabalhar. A sensação que ela pode ter é de desespero, porque, além da dor constante, também existe a pressão psicológica”, finalizou.
PANDEMIA
Por mês, Campo Grande realiza 2,3 mil intervenções médicas de caráter não emergencial, mas esse número é insuficiente para suprir a demanda referente aos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Milton faz parte das 6 mil pessoas que aguardam por cirurgias eletivas na Capital.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), a lista de espera é infinita, mesmo que zerada, no dia subsequente o número de cirurgias pode voltar a aumentar. Conforme a secretaria, o serviço será ampliado em breve.
ESTADO DE CALAMIDADE
Ontem (19), a Santa Casa de Campo Grande e hospitais filantrópicos de todo o País adiaram procedimentos eletivos e os reagendaram como forma de protesto.
De acordo com os profissionais, o ato é em decorrência de problemas causados pelo endividamento e subfinanciamento do SUS. A situação não é inédita, o adiamento das cirurgias eletivas acontece desde 2019. Conforme a Sesau, os procedimentos voltaram a ser feitos ainda no ano de 2022.
Via Correio do Estado MS
