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Tereza Cristina confirma que UFN3 será rebaixada a misturadora “por um período”

A fábrica de fertilizantes localizada em Três Lagoas poderia inclusive suprir parte da demanda de nitrogenados do País

Em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia, Mato Grosso do Sul tem um grande projeto em jogo: a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3) em Três Lagoas.

A retomada do negócio bilionário depende de um grupo gigante dos fertilizantes, a Acron.

Além disso, conforme adiantou o Correio do Estado na edição de 21 de fevereiro, a queda da produção de gás natural na Bolívia vai reduzir a fábrica a uma misturadora de fertilizantes, fato confirmado pela titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina Dias.

“Ela [a UFN3] com certeza também será uma misturadora por um período. O que há é o seguinte: primeiro, eles não vão entrar hoje lá e começar a fazer [fertilizantes], precisa ainda de investimentos, e eu não sei o prazo que isso vai levar. Acho que daqui a pouco a Petrobras vai falar sobre isso”, informou à reportagem.

Na sexta-feira (4), a senadora sul-mato-grossense Simone Tebet (MDB) foi à sede da Petrobras para cobrar um posicionamento do presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna, sobre a fábrica.

Para a senadora, que já foi prefeita de Três Lagoas, é inaceitável que tal grupo desvie a finalidade principal da fábrica e não produza fertilizantes conforme a expectativa do início da construção do empreendimento.

“Não aceitamos uma misturadora lá, que vai manter a nossa dependência de importação e não vai baratear o preço dos alimentos na mesa do povo brasileiro”, disse.

MUDANÇA

A mudança na estrutura da indústria se dará principalmente pela falta de matéria-prima vinda da Bolívia. A ideia é de que inicialmente ela deixe de utilizar gás natural para produção de amônia e ureia para misturar componentes importados.

Como já noticiado pelo Correio do Estado na edição de 1º de novembro de 2021, a Bolívia sinaliza uma queda na produção do gás natural. Ao jornal El Deber, o ex-ministro Mauricio Medinaceli disse que as exportações bolivianas de gás passam por um momento “muito frágil” porque o país não tem capacidade para atender às demandas dos mercados argentino e brasileiro.

Outro empecilho já apontado pela reportagem publicada no dia 12 de fevereiro deste ano é que os novos contratos para fornecimento de gás boliviano estão sendo fechados a partir de 2024.

A unidade de fertilizantes que pertencia à Petrobras foi projetada para consumir diariamente 2,3 milhões de metros cúbicos de gás natural para fazer a separação e transformar em 3.600 toneladas de ureia e outras 2.200 toneladas de amônia por dia.

Caso a fábrica se torne uma misturadora, ela importará os subprodutos de acordo com a formulação indicada a cada tipo de cultura e necessidade do solo e vai misturar as fórmulas para entregar os fertilizantes ao mercado.

A senadora Simone era prefeita do município quando cedeu um terreno de cerca de 50 hectares para a construção da fábrica da Petrobras.

“Estou há 12 anos nessa luta. Agora, nós ficamos sabendo que a empresa que conseguiu comprar, que é russa [Acron], não vai fazer fertilizantes. Ela vai misturar os fertilizantes que compraremos de fora, para se tornarem fertilizantes nitrogenados”.

“Agora é a hora de a Petrobras dizer que não vai entregar a fábrica quase pronta a uma empresa que não vai resolver o problema de fertilizantes no Brasil. Entregar para uma empresa que não assina contrato garantindo a produção de fertilizantes é inaceitável e inadmissível. Isso vai contra o interesse nacional e os interesses da Petrobras”, concluiu Simone.

Questionado sobre a mudança no perfil da fábrica, o titular da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro), Jaime Verruck, disse – antes do início dos conflitos – que a Acron quer começar a operação imediata.

“Eles vão começar a operar dentro do que já existe lá, então não vão esperar para terminar. A ideia é que eles utilizem o gás, mas já vão estar fazendo a mistura de adubo [em um primeiro momento]. Em seis meses, eles querem iniciar a atividade, o que para nós é muito bom”.

“A questão do gás, a Petrobras pode fornecer para eles. Como até terminar eles devem levar uns dois anos, eles [russos] têm dois anos para negociar o gás, até porque o cenário hoje não é bom para o gás, porque é caro e falta”, finalizou Verruck.

INVIABILIDADE

Os conflitos no Leste Europeu trouxeram a apreensão ao País e principalmente para Mato Grosso do Sul sobre o destino da obra paralisada há quase uma década.

Dependendo do tempo que o conflito vai durar e de seus efeitos no caixa da Acron, os analistas do mercado internacional acreditam que possa ter um impacto na continuidade do processo de venda.

Segundo a ministra, as tratativas sobre a retomada da fábrica permanecem confirmadas.

“Tudo que a gente sabe eu já conversei com o presidente da Petrobras, com o nosso embaixador na Rússia, falaram também com o CEO da Acron, e tudo que a gente sabe é que não teve nenhuma mudança. Que eles querem é continuar os investimentos”, afirmou Tereza Cristina.

A UFN3 começou a ser construída em 2011 e finalmente foi negociada com a gigante russa dos fertilizantes, Acron. A informação sobre a venda foi confirmada no dia 4 de fevereiro deste ano.

A estrutura foi orçada na época em R$ 3,9 bilhões. Apesar de a Petrobras e de o governo do Estado ainda não confirmarem valores atualizados, a planta alcançou 81% das obras concluídas em 2014 quando foi paralisada.

Após oito anos abandonada, o investimento necessário para retomar e concluir a obra deve voltar a casa dos bilhões.

Brasil busca abertura de novos mercados

Dependente da Rússia e da Bielorrússia, o País busca opções para viabilizar a próxima safra de plantio de grãos. Tereza Cristina diz que o ministério não mede esforços para garantir o suprimento de fertilizantes para o Brasil.

Segundo ela, a preocupação com o tema surgiu em meados de 2021, quando a Pasta notava grande dependência dos insumos da Bielorrússia e da Rússia.

Os dois países atualmente sofrem sanções fortíssimas dos países ocidentais em decorrência da guerra na Ucrânia.

Como o Estado é extremamente dependente desses produtos, a preocupação aumenta, caso o conflito no leste europeu se estenda. O Brasil importa 80% dos fertilizantes usados na agricultura.

“Não somos importadores, mas podemos ser um facilitador para que as empresas privadas possam ir lá fora buscar a matéria”, comentou a ministra sobre o papel do Mapa atualmente.

Ela afirmou que visita diversos países à procura de parceiros que possam fazer negócios e não pare o agronegócio brasileiro na safra 2022/2023. Em fevereiro, ela visitou o Irã em busca de alternativas para o tema. “Estivemos no Irã porque eles têm disponibilidade de volume e sofrem sanções americanas, então estamos atrás de cobrir essa possível falta”.

Com viagem marcada para o Canadá, o país norte-americano passa a ser a próxima chance brasileira de fornecimento.

“Vou ao Canadá, em viagem que era para ser em janeiro, mas atrasou por causa da troca de governo e tivemos dificuldade”.

A ministra ainda citou outros possíveis parceiros. “Tem Chile, Israel, Arábia Saudita, Marrocos, essas são nossas alternativas”, elencou.

Via Correio do Estado MS

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