[Via Correio do Estado]
Percebi, subitamente, que o fundo do poço não estava na morte, mas na vida. Na minha vida”. A frase é de João Nery no livro “Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois” que aborda os conflitos internos, o sofrimento e a vontade de tirar a própria vida do primeiro homem trans operado no Brasil. E foi ele o “norte” para que a psicóloga Adriane Lobo visse que ao seu redor havia muita gente precisando de acolhimento num período um tanto quanto delicado: das eleições.
Em outubro do ano passado, ela passou a abrir o consultório duas vezes por mês para acolher sentimentos, frustrações e o medo que batia à porta, em especial da comunidade LGBT. Passado o pleito, Adriane notou uma certa “acomodação social” e viu que o momento era o de abraçar ainda mais a este público.
Ao seu lado estavam a filha, estudante de Serviço Social, Nuala Lobo Cambará, Poppy Hoogesteijn Carpio, estudante de Artes Visuais e a assistente jurídica Jeniffer Nascimento no projeto que passou a se chamar “Amoressência”, um dos capítulos do livro de João Nery.
“Eu terminei o livro e fiz o curso para acompanhamento do processo da cirurgia de ressignificação sexual, que é o que a Psicologia trabalha e fiquei muito tocada pelas histórias daquelas pessoas”, explica Adriane.
Na vibe de “clinicar” do projeto, em uma das reuniões Jeniffer “cutucou” e falou que apesar do movimento ser acolhedor, todos poderiam ir além da Psicologia. “E eu pensei: ‘essa menina está certa, isso aqui é clínica, mas nós precisamos ir para o mundo”.
Foi quando o grupo bateu martelo e nasceu o coletivo criado para dar assistência à comunidade LGBT, mulheres, negros e indígenas. O lançamento oficial do Amoressência foi no último domingo, num sarau, com roda de conversa em torno da saúde mental das minorias e já com pauta para o próximo encontro: mercado de trabalho. balho. “No domingo eu ouvi uma frase muito interessante do Cambará [um dos participantes] que o coletivo é um movimento político-social e emocional que abarca as três grandes áreas da vida das pessoas. Somos completamente apartidários, mas não tem como você negar a política, porque a vida é política”, sustenta a psicóloga.
ASSISTÊNCIA JURÍDICA
Aos 24 anos, Jeniffer é militante acima de qualquer outra profissão. Da área jurídica, ela sugeriu que o grupo abordasse também instruções gratuitas ao público. “Para mim é extremamente importante, eu diria que é necessário, diante de tudo o que está acontecendo, a gente não pode ficar calado, nós que temos uma formação acadêmica precisamos fazer alguma coisa”, defende.
Como participar do coletivo?
O Coletivo Amoressência é aberto ao público. A próxima reunião será em abril, ainda não há data nem local confirmados, mas o tema será mercado de trabalho e como passar por uma entrevista de emprego. Para saber mais sobre o grupo, acompanhe a página no Facebook.