Pesquisa entrevistou mais de 80 mil usuários em 159 países para mapear expectativas e receios com a IA.
Um estudo realizado pela Anthropic analisou o que acontece quando dezenas de milhares de pessoas interagem com inteligência artificial no dia a dia. A empresa colocou uma versão do Claude para entrevistar os próprios usuários sobre o que esperam da tecnologia e o que temem perder com ela. A pesquisa reuniu 80.508 conversas abertas em 159 países e 70 idiomas. Segundo a Anthropic, este é o maior estudo qualitativo já feito sobre o tema.
O levantamento revela um cenário em que a aprovação geral da tecnologia é alta: 67% expressaram um sentimento positivo e 81% afirmaram que a IA já deu passos concretos na direção do que desejam, mas marcado por contradições em que o benefício e o risco nascem exatamente da mesma capacidade.
O que as pessoas querem da IA
- Excelência profissional 18,8%: a IA assume tarefas repetitivas e abre espaço para trabalhos complexos;
- Transformação pessoal 13,7%: crescer como pessoa, com a IA atuando como treinadora, apoio ou companhia;
- Gestão da vida cotidiana 13,5%: organizar agenda, lembrar compromissos e reduzir a carga mental;
- Liberdade de tempo 11,1%: sair do trabalho no horário e ter mais tempo para a família, amigos ou descanso;
- Independência financeira 9,7%: gerar renda e aliviar a pressão econômica;
- Transformação da sociedade 9,4%: resolver problemas coletivos como doenças, pobreza, clima e desigualdade;
- Empreendedorismo 8,7%: abrir e expandir um negócio sem capital ou grande equipe;
- Aprendizado 8,4%: estudar com um professor paciente e disponível a qualquer hora;
- Expressão criativa 5,6%: executar ideias que esbarravam na falta de técnica ou de tempo.
Enquanto a eficiência no trabalho lidera de forma individual com 18,8%, o bloco voltado para a vida pessoal, organizar a rotina, ganhar tempo livre e sair do aperto financeiro, soma 34,3%. Para esse grupo, a produtividade não é o objetivo final, mas sim o meio para liberar tempo e dinheiro para viver.
Benefício e dano andam juntos
A pesquisa mostra que cada benefício percebido na ferramenta carrega consigo um problema diretamente associado. A única grande exceção é a tomada de decisão, o único ponto em que a queixa supera o elogio.
Tempo economizado (50%) vs. Produtividade ilusória (18%)
Aprender mais e mais rápido (33%) vs. Atrofia cognitiva (17%)
Ganho econômico (28%) vs. Perder o trabalho para a IA (18%)
Decisões melhores (22%) vs. Falta de confiabilidade (37%)
Apoio emocional (16%) vs. Dependência emocional (12%)
No caso das decisões, 37% dos entrevistados citam respostas erradas ditas com confiança como uma falha marcante, contra apenas 22% que afirmam tomar decisões melhores com a ajuda da IA.
Conflitos dentro do mesmo usuário
Em análise sobre os dados, Álvaro Machado Dias, neurocientista e especialista em inteligência artificial, destaca que há um erro ao avaliar a IA dividindo os usuários de forma simplista entre favoráveis e contrários. “O achado central das 81 mil entrevistas, no fundo, é a existência de uma assimetria: o benefício da IA aparece como experiência e o dano aparece como previsão”, explica.
O neurocientista aponta que o ponto crítico do levantamento revela um problema atual e não apenas especulativo: “existe uma exceção a este padrão, a qual envolve perda de confiança, único dano que as pessoas sofreram mais do que anteciparam. Para mim, isso sinaliza a existência de uma crise de confiabilidade, a qual se instalou pelo fato de que as pessoas estão usando muito mais IA do que declarando isso publicamente”, diz.
Onde a desconfiança é maior
Em todas as regiões analisadas, a maioria avalia a IA de forma positiva, nenhum país registrou aprovação inferior a 60%. No entanto, o nível da minoria que desconfia da ferramenta varia segundo o grau de desenvolvimento econômico de cada região, impulsionado pelo medo do desemprego:
Europa Ocidental: 35,6% de rejeição (22,5% preocupados com emprego)
Oceania: 35,5% de rejeição (24,3% preocupados com emprego)
América do Norte: 34,5% de rejeição (24,6% preocupados com emprego)
Leste Asiático: 34,5% de rejeição (21,9% preocupados com emprego)
Europa do Sul e Leste: 34,0% de rejeição (22,1% preocupados com emprego)
América Latina e Caribe: 26,3% de rejeição (18,5% preocupados com emprego)
África Subsaariana: 24,2% de rejeição (18,2% preocupados com emprego)
As regiões mais ricas concentram a maior taxa de rejeição e medo do impacto no mercado de trabalho, enquanto economias emergentes tendem a enxergar maior potencial positivo.
“O padrão sugere que a mesma tecnologia comprime vantagens onde elas já existem e serve de atalho onde elas faltam”, conclui o especialista.
Via CNN Brasil