Saúde

Remédios em falta: A irregularidade do abastecimento de psicotrópicos

Como se não bastassem todos os determinantes sociais, ambientais e comportamentais do adoecimento mental — da pobreza à violência, do estresse à poluição, do álcool às bets —, agora temos que lidar com a falta de um dos medicamentos mais importantes na psiquiatria. Desde o primeiro semestre, os brasileiros lutam para conseguir encontrar o haloperidol nas farmácias, colocando em risco a continuidade de seus tratamentos.

Desenvolvido nos anos 1950, na esteira da revolução psicofarmacológica da psiquiatria, o haloperidol foi um dos medicamentos responsáveis pelo esvaziamento dos manicômios, junto com seu antecessor, a clorpromazina, transformando a história da psiquiatria a partir da transformação da história pessoal dos pacientes. Até então, alguns tipos de transtornos mentais eram como uma sentença para a vida toda: a pessoa começava a apresentar sintomas como alucinações (ouvindo vozes, por exemplo), passava a se sentir perseguida, monitorada, ameaçada, tornando-se muitas vezes violenta, terminando por ser recolhida às grandes instituições asilares. A ineficácia dos tratamentos de então determinava o destino dessas pessoas, que passavam o resto da vida internadas. Os novos neurolépticos, embora também não promovessem cura — como, de resto, não o fazem até hoje —, controlavam os sintomas o suficiente para que os pacientes deixassem de se sentir perseguidos, parassem de ouvir vozes e, consequentemente, não precisassem mais ficar internados. Um verdadeiro êxodo manicomial teve início nesse período (embora, por vários motivos, ainda demorasse a se completar).

Apesar dos avanços na psicofarmacologia, a verdade é que desde então nunca mais houve uma revolução da mesma magnitude, tanto que até hoje o haloperidol tem espaço nas prescrições médicas. Os medicamentos que o sucederam, apesar dos menores efeitos colaterais e da maior tolerabilidade, elevaram mais o custo do que a eficácia dos tratamentos. Não por outro motivo a Organização Mundial da Saúde o coloca na lista de medicamentos essenciais (um registro das necessidades mínimas de medicamentos para cada sistema de saúde) como uma droga indicada tanto para tratar a esquizofrenia quanto para o alívio do sofrimento em pacientes sob cuidado paliativo.

E, como se não bastasse, ele é um dos poucos medicamentos antipsicóticos disponíveis hoje em formulação de depósito, especialmente entre as opções de baixo custo oferecidas pelo SUS. Nessas apresentações, em vez de tomar comprimidos todos os dias, o paciente pode receber injeções mensais, melhorando a adesão ao tratamento, que muitas vezes é difícil.

Agora, os pacientes estão com dificuldade de encontrar a medicação. Em fevereiro deste ano, houve uma interrupção temporária da importação do Haldol, marca de referência e mais conhecida da substância. A normalização demorou e até hoje está irregular: esta semana, tive um paciente que não conseguiu encontrar a medicação em oito farmácias de São Paulo, por exemplo. Eu mesmo fui a um estabelecimento em que a atendente me confirmou: chegam uma ou duas caixas, que logo acabam e demoram a ser repostas. Com a falta do medicamento de referência, um efeito cascata de desabastecimento acaba acontecendo, prejudicando todos que precisam da medicação. Falando apenas da esquizofrenia, mais da metade dos pacientes cuja medicação é interrompida têm uma recaída no primeiro ano, e as taxas de internação sobem 100%.

Não é o primeiro remédio psiquiátrico que falta no mercado, e certamente não será o último. Mas, quando acontecer, a gente precisa levantar a voz e cobrar explicações e providências. Estamos aqui para isso.

Via CNN Brasil

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