Cultura

A imaginação no poder

[Via Carta Capital]

Enquanto a câmera gira, Fernanda Montenegro recebe a chuva em regozijo, esquecida dos varais no quintal. A atriz interpreta Zulmira, aquela que não pertence a homem nenhum. Cinco décadas se passaram desde que A Falecida, rodado entre as linhas do trem à moda de um clássico do Oriente, esconde-se entre os melhores filmes brasileiros, por razões tão fortes quanto a presença de Montenegro nele.

A saber, entre outros motivos, uns poucos minutos da performance de Vanda Lacerda, a fotografia espelhada de José de Medeiros, a música sem fim de Nelson Cavaquinho, as palavras nunca esperadas de Nelson Rodrigues. Com a câmera nas mãos, o diretor Leon Hirszman fez um carnaval, mas o grande público de nada soube, talvez porque a revolução do cinema novo não tivesse sido televisionada. 

O diretor Eryk Rocha, contudo, usufruiu dessa atmosfera transformadora, embora tivesse perdido o pai, nome-símbolo do movimento, aos 3 anos. Hoje, aos 38, o filho de Glauber Rocha, que documentou seu exílio cubano no longa Rocha Que Voa, de 2002, entende-se beneficiado pela clareza ritmada de Hirszman. “Ele é dos principais líderes e das cabeças mais lúcidas do movimento”, diz a CartaCapital.

“Pessoalmente, um daqueles diretores com quem guardo mais afinidade estética e política.” A Falecida tem presença notável em seu Cinema Novo, a estrear dia 3. Vencedor do prêmio Olho de Ouro no Festival de Cannes deste ano, o documentário aplacou em parte a ansiedade de quem imaginava Aquarius, concorrente na ficção, merecedor de todas as premiações não havidas. 

Paulo José
Paulo José em Macunaíma, diálogo ainda aberto com o País

Por duas vezes Fernanda Montenegro aparece sob a chuva no filme de Eryk Rocha, como se encenasse uma libertação, embora a obra não destaque a voz feminina. “Infelizmente, na década de 1960 eram raras as cineastas e, como o filme se centra nos autores do movimento, é verdade que não existem mulheres propriamente falando”, explica Rocha, filho da diretora colombiana Paula Gaitán.

“Eu não posso idealizar algo que não existe. Naquela época, o machismo era ainda mais forte do que existe hoje, uma questão não só do cinema novo, ou do cinema, mas do mundo e de uma época.” Apesar disso, ele lembra, atrizes como Yoná Magalhães, Luiza Maranhão, Anecy Rocha, Leila Diniz, Maria Gladys, Glauce Rocha, Norma Bengell e Dina Sfat, entre outras tantas, permeiam com muita força todo o filme, “seus corpos em movimento de luta, de transe, de beleza, de revolução”.

O documentário vê a corrente como um movimento de recriação, uma vez que a arte cinematográfica brasileira, então, parecia sofrer de inautenticidade ou mesmo de inexistência. Não julga a qualidade dos filmes e jamais diz quais envelheceram, embora se pudesse atestar sua permanência por meio de avaliações críticas, quase ausentes do filme.

“Minha aposta foi mergulhar no caldeirão do cinema novo a partir das vozes dos seus próprios autores, sem mediação nem interpretação, e tecer a melodia do filme em primeira pessoa baseado nessa polifonia”, justifica Rocha.

“Importante lembrar que o filme tem a participação de Paulo Emílio Salles Gomes, um dos maiores críticos e pensadores da história do nosso cinema. Outro dado relevante é que boa parte dos cineastas cinemanovistas também era crítica do cinema. Fazer esse filme me provocou o desafio de superar o aspecto anedótico-historicista e dialogar com o movimento no presente. Desejei olhar o cinema novo como um ‘estado de espírito’, um nervo intuitivo de criação que revela o embate do artista, do cineasta, com o seu tempo.”

Eryk Rocha
Eryk Rocha, mergulho sem mediação (Foto: Leonardo Lara/Divulgação)

Por uma década, o diretor pesquisou 130 obras brasileiras do período e vasculhou os arquivos das televisões local e mundial, de modo a extrair das entrevistas as principais considerações dos pensadores do movimento.

Por exemplo, o diretor de Macunaíma, Joaquim Pedro de Andrade, anota a limitação, para não dizer estupidez, dos críticos de então, que se apequenavam enquanto crescia a pesquisa autoral, porém não isenta de erros, segundo ele observava.

Rocha realizou duas dezenas de entrevistas com os construtores daquele momento ainda sobreviventes, como Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues, a partir de uma sugestão do diretor do Canal Brasil, Paulo Mendonça, que o fez notar, em 2007, a inexistência de um documentário sobre o movimento no País.

Mas não usou as imagens do testemunho, apenas o áudio das entrevistas, que devem ser reaproveitadas em uma série de seis capítulos com exibição na emissora em dezembro, “com outras camadas de informação e do contexto histórico”.

É um filme de montagem, realizada durante nove meses por Renato Vallone, no qual a poética se fez pelo movimento, pela correria dos personagens, seus olhares a conversar com outros assemelhados, por muitas cenas de obras diferentes que, unidas pela magia de Rocha, se conversam.

Cinema Novo é um filme inclusivo e generoso, pois cria uma teia de afetos e energia a unir várias gerações do cinema brasileiro”, diz o diretor. Isto explicaria, a seu ver, a razão de cineastas como Humberto Mauro ou Mário Peixoto terem sido incluídos no filme de modo a não apenas exemplificar “as raízes muito fortes e genuínas do nosso cinema”, mas quase a integrar atemporalmente o próprio movimento. Redescobertas, obras como O Desafio, de Paulo César Saraceni, ou Manhã Cinzenta, de Olney São Paulo, discutem uma época ainda assemelhada à atual, movida pelo imperativo não democrático e golpista. 

Diretores
A partir da esquerda, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Lima Jr., Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha e Leon Hirszman

“Aquela geração desejou inserir o cinema e a arte num projeto maior de país”, acredita Rocha. “Esse confronto do artista com seu tempo sempre me apaixonou e me mobilizou a fazer cinema. A crença de meu filme foi a de lançar o cinema novo no presente, em pleno movimento, e de indagar como o artista, hoje, pode se engajar nos processos políticos cotidianos do seu povo. O Brasil ainda não passou por um processo básico de compreender a cultura e a educação como forças estratégicas para o seu desenvolvimento, incluindo a complexidade dos muitos povos que habitam este país, de modo singular chamado por nós de Brasil. Creio que hoje precisamos com urgência libertar a imaginação rumo à criação de novos projetos políticos e poéticos.” Pleno de urgências, ele lembra uma intenção manifesta pelo diretor Saraceni: “Queria fazer um cinema político que fosse a melhor poesia”.

Para Eryk Rocha, o cinema novo deixou como herança a coragem e a invenção. “Seus filmes, em geral, vêm carregados de um sentido de urgência. A realidade convulsionada e o misticismo brasileiro estimularam um novo modo de filmar, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.”

Os filmes não respeitaram a fronteira entre documentário e ficção, uma marca de certa vertente do cinema contemporâneo. E testemunharam a passagem de um Brasil rural para um país urbano, do Sertão às favelas. 

Uma nova linguagem, como ele vê, revelou um país nascente. Mas, hoje, como testemunhar esse Brasil em movimento? “Isso me inquieta como realizador, me instiga e me provoca a filmar esse ‘tempo histórico’ tão estranho que habitamos, tempo de ruínas. Acredito que uma das forças originárias do cinema novo foi realizar uma potente simbiose entre política e estética, entre forma e conteúdo, uma nova gramática, tudo eclode, irrompe na tela! Nessa perspectiva me impressionou perceber como vários desses filmes seguem a ecoar, a dialogar visceralmente com o Brasil contemporâneo.”

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