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Venezuelanos escolhem Dourados para recomeçar

Redação

[Via Correio do Estado]

Diego Rivera, 30 anos, era policial. Gustavo Díaz, 52, trabalhava na exploração de petróleo, enquanto Rodney Solís, 31, era motorista. Os três têm em comum apenas a nacionalidade venezuelana e a oportunidade de recomeçar a vida em Dourados, a 230 quilômetros de Campo Grande.

Rivera e Solís fazem parte do grupo de 130 refugiados e migrantes venezuelanos deslocados de Boa Vista (RR) para a cidade no interior de Mato Grosso do Sul, no dia 24 de março. O processo de interiorização faz parte da Operação Acolhida, do Governo Federal.

“Eu era policial, mas me vi em um ponto que precisei deixar o emprego para emigrar. Com meu salário, se comprava o arroz, não comprava a carne. Se comprava a carne, não comprava o arroz”, conta Rivera, que deixou a esposa grávida e o filho de três anos na Venezuela. Ele planeja trazê-los para o Brasil.

Com duas plantas na região de Dourados, a JBS se dispôs a empregar o grupo. Os venezuelanos passaram por uma triagem ainda em Roraima, com provas, exames médicos e entrevistas. Já Díaz chegou ao Estado há quase dois meses, pouco depois da primeira leva de 101 refugiados e migrantes trazidos pela Operação Acolhida. Segundo ele, a Igreja de Jesus Cristo dos Satos dos Últimos Dias auxiliou com as passagens.

O autônomo Odair Laércio, 44, voluntário no auxílio à logística dos venezuelanos em Dourados, puxou o Pai Nosso. De mãos dadas, o grupo ouviu e assentiu que cada um lavaria seu prato depois de comer.
Solís fez a vida como motorista, mas com a crise e o desemprego, acabou na mineração para tentar sobreviver. Sem sorte, deixou a pequena El Palmar – no nordeste da Venezuela – por melhores condições no Brasil. O filho de seis anos, e a filha de três, ficaram com a mãe. “Foram dois dias caminhando até chegar em Pacaraima (RR). Em Boa Vista fiquei no abrigo Tancredo Neves. Vamos nos acostumando com a situação. Antes, jogava fora uma mesa que achava que não servia, ou uma cadeira. Agora, ter uma mesa já é um luxo”, diz.

Solís vai dividir um apartamento de dois quartos com mais quatro venezuelanos no Jardim Água Boa. As moradias para os 130 refugiados e migrantes foram viabilizadas por voluntários em Dourados, como Laércio.

“Nós fornecemos uma cesta de alimentos até eles começarem a trabalhar. A partir do segundo mês eles vão começar a custear aluguel, água, luz e comida com o dinheiro de seu salário”, explica.

O deslocamento dos 130 venezuelanos para o interior do Estado teve o apoio da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que cedeu bolsas de auxílio temporário aos realocados. A Agência da ONU para Migrações (OIM) fretou o avião que transportou 100 venezuelanos e custeou as passagens em voos comerciais dos outros 30.

“COMEÇAR DO ZERO”

Diferente de Rivera e Solís, Gustavo Díaz chegou em Dourados sem garantia alguma. O filho, Gustavo Eduardo Díaz, 17, veio junto. Com 20 anos de experiência em perfuração de poços de petróleo, Díaz garante que entregou dezenas de currículos desde que chegou a cidade sul-mato-grossense. Conseguiu bicos em capinagem, construção e transporte. Gustavo Eduardo vende salgados de porta em porta.

Díaz deixou a cidade de Maturín com destino a Pacaraima, na fronteira em maio do ano passado. São 18 horas de carro. Voltou em dezembro para buscar o filho, que, segundo ele, passava de três a quatro dias sem comer. Seus outros três filhos, de 25, 27 e 32 anos, permanecem no país vizinho.

A crise na Venezuela começou a se instaurar ainda em 2013, após a morte do então presidente Hugo Chávez, que estava no poder desde 1999. Vice, Nicolás Maduro assumiu o cargo e precisou fazer concessões e ampliar programas assistencialistas em troca de mais respaldo popular, mas os cofres do governo estavam esvaziados. Maduro ordenou a impressão de mais moeda, o que resultou no aumento da inflação e na disparada dos preços de itens básicos. Acnur e OIM revelam que o número de refugiados e migrantes da Venezuela atualmente no mundo é de 3,4 milhões.

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