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Denúncia: medo, extorsão e venda de droga em ala psiquiátrica da Máxima

Redação

[Via Campo Grande News]

Denúncia que chegou à reportagem do Campo Grande News e já está sob investigação do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) aponta que, na ala do Estabelecimento Penal de Segurança Máxima Jair de Carvalho, em Campo Grnde, onde presos deveriam receber tratamento psiquiátrico, imperam o medo, as agressões, a venda de drogas e existem casos de extorsão.

Sob condição de preservação da identidade, por receio de represálias, parentes de internos do presídio indicam presos que deveriam auxiliar nos serviços como responsáveis pelos abusos.

Os detentos Dezidério Silva Araújo e Reginaldo Rodrigues Ortega, conhecido como “Perriado”, seriam os personagens principais de uma série de agressões, uso indiscriminado de drogas e ameaças constantes a familiares dos internos.

Com fichas extensas e uma pena a cumprir, somada, de 136 anos, a dupla usa os dias trabalhados na Máxima para reduzir os anos na prisão. Mas, segundo a denúncia, a posição de “poder” se tornou o motivo perfeito para conseguir dinheiro. Dentro do pavilhão de saúde, os dois manteriam esquema de venda de cocaína e com agressões físicas, forçariam os presos psiquiátricos a consumirem entorpecentes.

A partir daí, conforme os denunciantes, as dívidas são cobradas diretamente das famílias, que para não verem os parentes espancados, depositam as quantias em contas ligadas a Reginaldo e Dezidério. “As famílias são obrigadas a pagarem valores absurdos do uso de cocaína. Esses doentes tomam remédios controlados e não conseguem atingir um tratamento adequado devido ao consumo da substância”, contou o familiar à equipe de reportagem.

Comprovantes enviados à reportagem mostram depósitos de R$ 100 a R$ 200 feitos pela família dos presos para os suspeitos.  Para quem não tem como pagar as dívidas dos filhos, os presos dariam outra opção: o sexo. “Essas mães são ameaçadas e induzidas a fazerem sexo com Dezidério e Reginaldo. Por terem medo de que algo aconteça com seus filhos, elas acabam aceitando”, descreveu o denunciante.

Todos os abusos dentro do pavilhão ainda seriam “acobertados” por uma técnica de enfermagem, que impediria os internos de denunciarem as agressões sofridas no local.

Depósito feito em 14 de julho
Os R$ 200 foram depositados no dia 1º de agosto

Investigação

Ao Campo Grande News, o MPE confirmou a denúncia, e afirmou que o caso é investigado em segredo de justiça, e por isso, nenhum detalhe pode ser repassado.  A Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), alegou que não foi informada dos maus-tratos aos internos, mas que fará uma investigação a respeito.

Em nota, a Agepen afirmou que os dois internos trabalham dando suporte às ações de assistência ao pavilhão de saúde, já que os custodiados com problemas psiquiátricos possuem limitações que, “muitas vezes, os impedem de manter a higiene pessoal e a limpeza do espaço onde estão alojados”.

De acordo com a agência, revistas são feitas rotineiramente no pavilhão e nenhum indício da denúncia foi encontrado. Ainda assim, o caso será avaliada e a possibilidade de substituição dos dois presos envolvidos nas agressões, pelo menos até a conclusão das apurações. Se a irregularidade for comprovada, “serão aplicadas as punições cabíveis”.

Ainda conforme a Agepen, os detentos do com problemas psiquiátricos recebem acompanhamento regular de uma psiquiatra, de um médico infectologista e de um clínico geral, que atendem no presídio, e também assistência diária da equipe de enfermagem. Os internos ainda participam de um projeto específico desenvolvido por uma psicóloga do Módulo de Saúde do Complexo Penitenciário.

“Cabe ressaltar que é importante que os familiares procurem a Agepen, no sentido de prestarem mais informações, assim como em qualquer situação que divirja dos procedimentos legais. Além disso, é possível registrar boletim de ocorrência na delegacia de Polícia Civil, inclusive com a apresentação dos comprovantes citados”, informa a nota.

Os dois presos são representados pela Defensoria Pública. Os responsáveis pela defesa, via assessoria de imprensa, informaram que só poderão se pronunciar a respeito depois de se inteirar da denúncia.

De longa data

Condenado por sete roubos e um latrocínio – roubo seguido de morte – Dezidério Silva Araújo, de 39 anos, soma uma pena de 76 anos e dois meses de prisão. O preso ficou conhecido em 2000, quando cometeu uma série de assaltos em Campo Grande, um deles que resultou na morte de duas pessoas em uma açougue.

Todos os crimes tinham a mesma finalidade, roubar veículos e levá-los ao Paraguai. Para isso, Dezidério e os comparsas mantinham famílias reféns até o que os veículos chegassem no país vizinho e no “processo” roubava eletroeletrônicos, joias, comiam e bebiam nas casas das vítimas.

No dia 29 de julho de 2000, Dezidério e dois comparsas invadiram uma casa de carnes no bairro Pioneiros. O proprietário, a esposa e dois funcionários foram mantidos reféns pelo trio, mas em determinado momento, o dono do estabelecimento reagiu, e acabou baleado por um dos bandidos.

Mesmo ferido, o homem continuou em luta com o suspeito e um dos funcionários resolveu ajudar. Foi então que Dezidério disparou e matou David Ferreira da Silva. O proprietário, identificado como Marcílio Braga de Abreu, também não resistiu aos ferimentos. Pelo crime, o suspeito foi condenado a 24 anos de prisão.

O histórico de remição de pena, anexado aos processos o suspeito, mostra que o preso já trabalhou em vários setores do presídio, como cozinha, manutenção e a padaria. Em 2016, dos 76 anos e dois meses de prisão, Dezidério já havia cumprido 15 anos e 10 meses e ganhado um ano e quatro meses de remição pelo trabalho prestado dentro da unidade.

Reginaldo Rodrigues é de Aquidauana e responsável por vários crimes na cidade – localizada a 135 quilômetros de Campo Grande.

Em outubro de 2000, o suspeito espancou até a morte Felisberto Ramão Olagas dentro de uma cela da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Aquidauana. A vítima estava presa por atentado violento ao pudor contra uma criança de 1 ano e três meses e por isso foi assassinado por Reginaldo e um outro preso. Pelo crime, foi condenado a 5 anos e três meses de reclusão.

Exatos sete anos depois, o interno matou a facadas Laudson Alexandre Chaparra. O motivo do crime seria uma dívida de R$ 35 e pelo homicídio foi condenado a 17 anos e seis meses de reclusão. A ficha criminal ainda soma vários crimes de roubo.

Segundo o último cálculo de pena, anexado nos processos em janeiro deste ano, Reginaldo soma 58 anos e cinco meses de prisão e já cumpriu 16 anos e oito meses. Da pena total ganhou um ano e oito meses de remição.

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