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Ajuda após terremoto não chega aos mais pobres no México

Redação

[Via Correio do Estado]

Da casa de dois cômodos onde María Elena de la Cruz, 55, morava em Juchitán com os oito filhos e os dois netos restaram os tijolos soltos e os pedaços de madeira e palha que compunham o telhado.

Com o terremoto de magnitude 8,1 que atingiu o México na quinta-feira (7), cujo saldo de mortos subiu para 96 nesta segunda (11), ela também perdeu o forno e as ferramentas com que fazia tortilhas de milho, única fonte de renda da família.

Quatro dias após o tremor, porém, ela e seus vizinhos do Sétimo Setor, bairro pobre a 20 minutos do centro, não receberam visita da Defesa Civil, da prefeitura ou doações de comida e água.

Quadras acima, uma área de classe média em que a maioria das casas é de alvenaria recebia máquinas para tirar escombros e um posto de saúde itinerante.

A desigualdade no segundo Estado mais pobre no México repete-se na falta de coordenação entre os entes estatais, concentrando suas ações e as doações privadas na região central da cidade.

Um dos exemplos é a segurança. Na uma hora em que a reportagem ficou no Sétimo Setor não passou nenhum carro das polícias (municipal, estadual ou federal), dos bombeiros e das Forças Armadas.

Isso faz com que os moradores tenham que ficar perto de suas casas, apesar do risco de desabamento.

“Não podemos perder parte das coisas que restam para os ladrões que passam por aqui”, disse Ericel López, 41, cuja casa de alvenaria está com grandes rachaduras e a ponto de cair.

Nas últimas noites, López dorme em uma rede em frente ao imóvel, no fundo de um terreno com quatro residências de seu tio, Ismael Santiago, divisão similar a outras propriedades do bairro.

A maioria das casas do Sétimo Setor, porém, é de adobe, herança dos zapotecas, antepassados dos moradores de Juchitán. Nos quintais, criam galinhas e montam seus fogões e fornos de lenha.

Algumas das famílias também mantêm a tradição de dormir em redes. Os outros recorrem ao método por necessidade, já que suas camas foram destruídas e as réplicas continuam intensas.

Graciela Hernández dorme desde o terremoto em uma espreguiçadeira enferrujada. O telhado de palha da casa de dois cômodos em que vivia com os filhos está escorado com um tronco de árvore.

Hernández só conseguiu água no domingo (10), quando passou um carro-pipa. “Poderiam mandar pelo menos uma escavadeira e os caminhões para tirar os escombros”, disse.

Alguns moradores chegaram a andar seis quadras para chegar ao local onde as autoridades estão tirando os destroços das casas do Quinto Setor, área de classe média também afetada pelo tremor.

A única resposta política, afirmam, veio por meio de um cabo eleitoral que apareceu no bairro pedindo-lhes que o seguisse para algum lugar onde receberiam ajuda.

No início da tarde, deputados do opositor Partido da Revolução Democrática (PRD) anunciaram doações para a cidade e povoados vizinhos, em evento com cabos eleitorais, alguns dos quais chegaram em um ônibus de uma prefeitura da região.

Nesta segunda, o governador de Oaxaca, Alejandro Murat, anunciou que 76 pessoas morreram no Estado, 12 mil casas foram destruídas e 800 mil pessoas, afetadas.

Juntando com Chiapas e Tabasco, foram 96 mortos. Murat reconhece que a ajuda está demorando. “Em menos de 96 horas tivemos que dobrar a ajuda, mas ainda falta levá-la quadra por quadra”.

ABUNDÂNCIA

Nas quadras mais próximas ao Centro, por outro lado, a presença das autoridades era notável ou até excessiva.

Além das máquinas retirando os escombros, o Quinto Setor ainda recebia a visita de integrantes do Centro de Controle de Vetores, da Defesa Civil municipal e de médicos do governo mexicano.

Moradores de casas de alvenaria que não resistiram usaram lonas, que penduraram nos postes para dormirem cobertos, e escolhiam roupas de sacos de doações que tinham acabado de chegar.

Ao lado da prefeitura, que teve metade do prédio derrubado, passavam camionetes carregadas de policiais das três esferas e soldados.

As autoridades ainda montaram abrigos para os desabrigados, ocupados apenas por moradores próximos. Foi o caso de Candelaria Ramírez, cujo sobrado ficava a metros de um dos albergues.
A parte de trás do segundo andar e a escada que davam acesso ao cômodo caíram.

Apesar da assistência, ela prefere voltar para casa à noite. “Não dá. Tem muita gente roubando por aí”. E brinca com as réplicas: “Vez ou outra tomamos uma dosezinha de mezcal [aguardente feita de agave]. Aí fica mais fácil enfrentar os tremores.”

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